Do outro lado da linha

O último ano tem sido uma verdadeira revolução que nos deixou mais expostos, vulneráveis e postos à prova. Como psicóloga, esta tem sido uma altura atípica acompanhada por diversos desafios e problemáticas que têm providenciado um crescimento, tanto a nível pessoal como profissional.

Desde março de 2020, surgiu uma nova resposta da qual faço parte, através de Instituto de Administração da Saúde, IP-RAM, assumido agora pela Direção Regional de Saúde: uma linha de apoio psicológico para toda a população que esteja a sofrer, direta ou indiretamente, consequências da covid-19. Esta tem sido uma experiência que me fez mudar de perspetivas e conhecer as mais diferentes realidades.

Através deste trabalho, tenho conseguido observar as principais preocupações e vulnerabilidades da população. Denota-se essencialmente um cansaço pandémico associado a todas as mudanças e restrições da situação que vivemos, mas também algum desânimo perante o futuro devido à incerteza vivenciada. Surge, na maioria dos casos, uma desorganização na rotina, principalmente quando há a necessidade de cumprir o isolamento, em situações de desemprego ou lay-off. Cada caso é diferente, mas em diversas situações surge uma baixa tolerância à frustração, dificuldade no processo de luto (potencialmente agravada pelas restrições nas visitas hospitalares, funerais, etc.), humor deprimido, dificuldade na gestão da ansiedade, surgimento de ataques de pânico e alterações na qualidade de sono e apetite. Pessoas que já apresentavam alguma perturbação psicológica podem evidenciar agora um agravamento da sintomatologia.

Nos últimos tempos também se denotou uma maior adesão e necessidade de recorrer a psicofármacos (maioritariamente ansiolíticos e antidepressivos) como auxílio no alívio dos sintomas.  Os fármacos por sua vez e de forma independente não devem ser a solução, sendo que juntamente com um acompanhamento psicológico, têm a capacidade de evidenciar melhores resultados.

Apesar de tudo, é gratificante observar que há muita gente que acede a este recurso, espelhando a noção da necessidade deste apoio. Lamentavelmente, muitas pessoas ainda sofrem em silêncio, agravando a sua fragilidade emocional. Como seres humanos, todos nós possuímos potencialidades e fraquezas e é essencial aceitarmos que nem sempre nos vamos sentir no nosso melhor. Muitas das vezes recebo chamadas em que se denota um nível de desamparo acentuado que surge como consequência do “arrastar da situação”. Nestes casos, a intervenção acaba por ser mais desafiante e com uma recuperação da saúde psicológica mais lenta. O ideal seria haver uma procura de um apoio prévio, de modo a evitar um nível de sofrimento extremo.

E que impacto sentiremos a longo prazo? A prevenção será sempre a melhor arma, pelo que desde o momento em que sintamos dificuldade na gestão das nossas emoções e um desconforto que se prolonga ao longo do tempo é essencial procurar um profissional de saúde que nos possa dar apoio desde uma fase inicial. Caso mantenhamos esta dificuldade, corremos o risco de desenvolvermos perturbações de ansiedade e pânico, perturbações de stress pós-traumático e perturbações depressivas. Temos então disponível a Linha de Acompanhamento Psicológico da Direção Regional de Saúde – 291 212 399, acessível a toda a população. Saúde mental também é saúde!