Não venhas tarde.

O título lembra a canção. Triste fado. Pobre mulher, na despedida, a implorar ao seu amor para não se atrasar no regresso.

Era assim. Pedia-se, cantando. Fazia-se música. Ficava no ouvido. Acatava-se. Quanto mais não fosse, para ouvirmos uma e outra vez tão bela melodia. 

Agora não. Alteram-se uns acordes. Mudam-se as letras. Não se canta. Vocifera-se. Não acreditam? O que acham que quis dizer o senhor Presidente quando, ao mesmo tempo que alargava o horário de circulação, soltou um “não tenho problema nenhum em fechar tudo outra vez”? Ou um, em ritmo de refrão para ser bem interiorizado, “desconfinar não é abandalhar”? Era música, meus amigos. Era música. O nosso pianista estava a ensaiar uma nova versão da canção de Carlos Ramos. Pessoalmente, não apreciei o registo nem o tom. Preferia, sei lá... Um:

 

“Não venhas tarde!”

Diz o Presidente com carinho.

Se não queres que ele te aguarde, 

É bom que chegues cedinho.

 

“Não venhas tarde!”

E eu peço ao CDS que no fim

Não se faça de covarde

E devolva o pilim.

 

Sim, porque o nosso senhor Presidente não tem mãos a medir. Para além de confinamentos, também tem que tentar gerir eventuais crises políticas da coligação. Ainda um destes dias o ouvia dizer “é bom que a Procuradoria esclareça toda esta questão”, numa referência ao inquérito aberto a seis membros do Partido Popular. Bom, Sr Dr!? Isso não é bom. É muito bom! Mais. Se eu não tivesse medo de escrever, acrescentaria que era óptimo que se tirasse a limpo, não só esta, como muitas outras histórias. Há delas que são do Arco da velha.

Outro enredo que não lembra a ninguém é o do professor que foi suspenso e agora viu ser-lhe devolvida a razão pelo Supremo Tribunal. Mas então manda-se um docente para casa com uma mão à frente e outra atrás? Sem vencimento? Por 180 dias? 6 meses? Meio ano? Bonito serviço. A sorte deste senhor foi ter uma sogra como eu não tenho. Caso contrário teria passado por dificuldades. Pessoalmente fico feliz pelo desfecho. Agora só espero que consiga suspender também a actividade de quem o “encostou”. Sempre devem ganhar mais do que um professor. Ah, dinheiro mal gasto! Mas vá. Pronto. Por outro lado, tenho que confessar que fiquei surpreendido com a postura do Diretor Regional da Inspeção Regional da Educação. Fez o que poucos fazem. Colocou o seu lugar à disposição, imediatamente. Agora para não o terem deixado sair, será que seguiu o exemplo e decidiu cantar? Já sei... Trauteou um “vou levar-te comigo”. Remédio santo. Fica logo tudo na mesma. E, no fundo, entende-se. Vamos agora arranjar problemas para quê? O professor já vai ser reintegrado. O “cadastro” vai ser limpo. Vai receber, possivelmente, com retroactivos. Quiçá ter direito a uma indemnização. Vai poder devolver à sogra o que é de sogra. E vamos agora desafinar? Logo agora?! Não! Siga a música.

Quem parece estar a pedir música também é o Representante da República. Então o senhor não ousou admitir que “o recolher obrigatório, num cenário de calamidade, pode suscitar dúvidas que o Tribunal Constitucional tenha de clarificar”. Caro Dr Irineu, ponha-se fino. Se começa a falar muito, arrisca-se a ser trancado no Palácio de São Lourenço. E o pior é que depois corre o risco de ficar lá esquecido para sempre. Sei lá eu quem é que vai dar pela falta?!

Por isso, o melhor é não fazer barulho. Imitar o seu homónimo de sobrenome. Faça-se de morto. Finja que não se está a passar nada.

Não. Cantar não é opção. Nem pensar. “Soltem os prisioneiros” está fora de hipótese. “Chamem a polícia” muito menos.

É que eles andam ocupados a camuflar radares em tudo o que é lado. Já há tempos alertei para o caso. Mas agora está pior do que nunca. Ele é no meio do silvado. É em cima de muros. É a meio dos carros. Só estou com medo que, com tanto esconderijo, qualquer dia se lembrem de o meter num sítio onde o sol não brilha. Esqueçam. Estou a lembrar-me agora que já o enfiaram lá também. Sim, há dias estava dentro de um túnel.

 

Pedro Nunes escreve
ao domingo, todas as semanas