Não se cumpriu

A 25 de abril de 2021, na cerimónia do 47º aniversário da Revolução dos Cravos, no Funchal, fomos muitos a dizer o mesmo. Houve, depois, quem, com alguma ironia, me transmitisse que, daquele encontro, quase saía um disco riscado e me perguntasse se o resultado dos discursos da oposição era do malho ou do malhadeiro.

De facto, não houve quem não afirmasse que, no Funchal, Abril não se cumpriu. E exemplos não faltam.

Veja-se:

– durante este ano, o Executivo deu-se ao luxo de contratar serviços, no âmbito da candidatura do Funchal a Capital Europeia da Cultura, por um valor três vezes superior àquele que pagaria a Rigo, artista que convidou para comissário e, depois, desconvidou, e nunca teve tempo, ou sequer se preocupou em aprovar apoios diretos aos empresários em desespero, por conta da pandemia, a não ser agora, a meses das eleições;
– a incapacidade do Presidente da Câmara criar ligações com as forças vivas da cidade, de que é exemplo claro este desconvite a Rigo ou as acusações ao trabalho da Associação Conversa Amiga;
– os assuntos gastos que são levados às reuniões de vereação (que não acontecem todas as semanas, como seria de esperar, especialmente em tempos de pandemia), que não avançam por incompetência e que não são debatidos, democraticamente;
– o garrote financeiro feito, em tempos, à freguesia do Monte, em que não lhe foi transferido um único cêntimo e a tentativa de imposição de um contrato de delegação de competências, situação que apenas se resolveu através da Assembleia Municipal;
– a execução de 37%, e não de 100%, do Orçamento Municipal, e o refúgio no argumento gasto do respetivo chumbo, esquecendo-se todos os outros que foram aprovados, sem qualquer retorno prático para a população;

– as ameaças aos trabalhadores das empresas municipais;

– a recusa em pagar um serviço essencial à empresa Águas e Resíduos da Madeira, que coloca em causa a prestação de serviços noutros concelhos, e, no âmbito deste diferendo, a entrega de edifícios emblemáticos da cidade para pagamento;

– ou, como se estes parcos exemplos, de entre tantos, não bastassem, fazendo um balanço, a existência de mais de cinco dezenas de propostas aprovadas em Assembleia Municipal que foram ignoradas e não implementadas por esta Câmara Municipal.

Acha mesmo que Abril se tem cumprido no Funchal?

Reunimo-nos, ali, para que a memória não se apague, para que nos lembremos que num dia, não tão longe assim, gente com bravura e valentia nos deu a oportunidade de crescer e viver em liberdade. Mas também, e acima de tudo, para reiterar que honrar Abril não é somente assinalar a data com artefactos, não é forrar paredes de cravos, nem encher a boca de palavras vãs. Abril é mais do que isso. Não basta dizer-se que se tem uma “gestão transparente, séria e democrática” ou afirmar que se trouxe àquela casa uma “primavera da democracia” nunca antes vista.

Enquanto a única intenção for calar quem nunca teve medo de apontar a incúria e o desleixo a que chegou esta câmara, enquanto houver um claro desrespeito por todos os partidos representados na Assembleia Municipal e, acima de tudo, por todos os Funchalenses, para quem a nossa ação é prioridade diária, Abril não se cumpre.

O 25 de abril não é uma data isolada, é uma construção diária feita por quem quer, efetivamente, governar para as pessoas e não por quem abafa a democracia através da sua postura.

O Funchal precisa de voltar a ser prioridade, precisa de estar sempre à frente.