O país de Abril

Abril não tem donos, tem protagonistas que merecem gratidão histórica. Abril é a libertação de uma nação movida por um ideal de democracia, liberdade e igualdade. E é a idealização que define o carácter das verdadeiras lideranças, de um sonho de transformação da sociedade que inspira nos cidadãos sentimentos de adesão e confiança.

Perante os desatinos que Abril foi consentindo, ressuscitam-se ódios, os fantasmas da história, os saudosismos, procurando manipular a juventude desmoralizada, os injustiçados e a velhice desamparada, para paradigmas falaciosos como os da segurança e a honradez com que o salazarismo se mitificou. Uma visão pessoal do interesse nacional, de isenção da esfera pública em face da privada; do equilíbrio cego das contas, não apaga o legado de um país profundamente desigual, de generalizada miséria e analfabetismo; de ausência de condições sanitárias; de fome resignada; do espartilho do pensamento; dos bairros de lata que circundavam as cidades; a vil exploração da mão-de-obra, as moças criadas de servir a troco de comida e roupa velha; a emigração forçada; os abusos das filhas de ninguém em escândalos abafados; o clientelismo económico, a corrupção tornada invisível nas artes da propaganda e da censura. Por cá, a torpeza da colonia; a indignidade do ilhéu de Câmara de Lobos, das furnas tomadas por habitação, dos bairros de costaneiras e zinco nos socalcos das ribeiras; a segregação na escolaridade, os jovens arremessados para sebentas clericais sem vocação, os pais que fizeram doutores a pulso a troco dos últimos anéis ou através de empréstimos suados. Mais do que emoldurar cenários com cravos e discursos estafados, que as novas gerações entrevêem com o mesmo alheamento com que se vê o 5 de Outubro e outras datas, é bom lembrar-lhes estas coisas.

Passados 47 anos, o país parece procurar ainda a sua identidade, um rumo colectivo seguro e idóneo que devolva à população a esperança e a credibilidade.

País de um Estado transformador da realidade por decreto, o grande irmão numa legiferação infinita e sobre tudo, o país das quotas, dos planos e das comissões nacionais, as entidades reguladoras de coisa nenhuma e uma imensidão de coisas inúteis em que se vai entretendo e entachando uns correligionários.

País que fomenta um igualitarismo bacoco, amarrado pelo politicamente correcto, por vacas sagradas elevadas a imperativo constitucional; pela hidra de lerna da política, pelas lideranças frouxas e vazias empacotadas na propaganda partidária; pela visão tecnocrática da realidade; pela escravidão do crescimento económico, instável e que despreza o ideal do desenvolvimento humano.

E, de novo, as disparidades e a pobreza despontam. Nos bairros de lata do séc. XXI nas periferias, onde a ostracização e a delinquência atingem milhares, num fracasso das politicas sociais, de ordenamento e de imigração; os surtos emigratórios; a universalidade na saúde que não garante o acesso; o contrato precário, o recibo verde que desampara a juventude às mãos de um patronato vesgo que só sabe driblar a mão-de-obra como factor de produção; a actividade paralela, o jeitinho que descamba na grande corrupção, generalizada e impune; a política como emprego, a soberba e o deslumbramento do carro preto, os contactos negociais, as oportunidades de fortuna, a empresa que se tutela e para onde se vai trabalhar; os novos lápis azuis da realidade manipulada pela propaganda, pelo jornalismo sectário e a soldo; a asfixia da classe média. É preciso que o país se reforme e se desprezem as lideranças sem conteúdo, porque o populismo espreita na ânsia de um novo 28 de Maio.