O princípio do fim

A vida é um percurso existencial que deve ser constituído em Paz, e deve ocorrer nesta relação entre a vida e o homem, uma harmonia superior, poderá ser observada como uma definição de felicidade, mas julgo ser superior à mesma, não é a Felicidade em si um desígnio final, mas sim a vida vivida, com todas as suas vicissitudes, virtudes e imperfeições e compete-nos não ser figurante nesta vida que é a nossa.

Todo este percurso assente num exercício imaginado, que é a nossa vida, deve é ser assumido em Paz, nas vitórias e fracassos, na saúde e doença, não uma aceitação vazia dos acontecimentos, mas a gestão de vontades, e expectativas para com a realidade, e aí o axioma da inevitabilidade de Beethoven “Es Muss Sein”- tem de ser!

O importante é construir percurso, viver, pois como afirma Oscar Wilde “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” Estar presente nessa vida baseada em factos, que sustentam o processo imaginativo vivencial!

Esta tranquilidade na existência é fundamental para que o percurso se cumpra (seja ele qual for) mas acima de tudo, para estarmos preparados para o momento do balanço da nossa vida. Se Séneca advoga que o devemos fazer de tempos a tempos por forma a valorizar o que está feito e nesse balanço sentir-se bem, aceitar o percurso realizado (o passado não é alterável pelo que é necessário estar em paz com ele) e sonhar o que estará por concretizar, ou melhor, o que o processo vivencial imaginado nos desperta como possibilidade franca de evolução num caminho positivo. Na realidade existem momentos definidores na nossa vida, que nos transportam para esse balanço vivencial, um deles, pela dificuldade da sociedade ocidental em aceitá-lo e mau relacionamento com a morte, é o do princípio do fim, no fundo o momento em que nos deparamos com a nossa finitude! E não há nada mais humano do que concretizar a vida na morte!

Ora perante este princípio do fim, isto é, o princípio da experiência vivencial observando a concretização da morte, ou o início do percurso para a mesma, surgem logo vários considerandos, um é o da finitude objectiva, outro é a relatividade temporal (o tempo parece que se esgota por entre os dedos das mãos), outro será o balanço vivencial, o que fiz, o que ficou por fazer, o conflito das vontades interiores e as concretizações, a subjugação ou a fuga ao desejo, o procrastinar da vida idealizada.

O princípio do fim, não é mentalmente atingido em exclusivo nas idades avançadas, apesar de reconhecido que a velhice ainda é a maior causa de morte, mas sempre que no percurso se atingem marcos vivenciais (a idade, e as condicionantes de vida pessoais e familiares, são razões major), ou quando a vida se desenrola num marasmo existencial, quando o interesse e a esperança eclipsam-se.

Quando em tempos de balanço, existe uma harmonia existencial, uma paz vivida e sentida perante o percurso decorrido e o que está para vir, a morte torna-se uma mera formalidade a cumprir.

Pelo que o adágio popular esvai-se em sentido “só não há solução para a morte”, a solução para a morte é morrer em Paz.