O prédio do meu vizinho

Estamos a chegar ao fim de mais um mandato autárquico. Em breve todos nós, eleitores e eleitoras (hoje estou muito politicamente correcto) vamos ter de escolher que cidade queremos para viver, que cidade queremos para trabalhar e que cidade queremos para os nossos filhos. Além de um direito, é também uma responsabilidade elevada e não deve ser encarada de animo leve. Quem vier a gerir e a comandar os destinos das nossas cidades vai também conduzir as nossas vidas, mas, se o "chauffeur" não for lá muito habilidoso, a parede pode muito bem ser o destino final...

A visão que temos para a nossa cidade será, como é óbvio, uma coisa pessoal, mas não nos podemos esquecer que, ao viver numa cidade, ao viver em comunidade, esta visão tem de envolver partilha, obriga a concessões, a reformulações e a um respeito profundo pela opinião e pelo espaço dos outros, sobretudo o espaço das ideias. Não quer dizer que todos pensemos de igual modo, aliás, os consensos são sempre medíocres, pois quando todos pensam a mesma coisa é sinal de que ninguém pensa grande coisa. Quem pensa na cidade tem de pensá-la de forma democrática, nunca de forma ressabiada e autocrática. Uma cidade não se gere com amuos nem estados de espírito.

A sabedoria popular, baseada na convivência urbana quando a urbanidade não abunda, diz que mais vale um mau amo do que um mau vizinho. Nada mais acertado! No caso em apreço e com as eleições autárquicas à porta, o caro vizinho tem de pensar que não está em causa apenas um ano da sua vida e que o vizinho que escolher para mandar ou desmandar no condomínio pode muito bem transformar a sua existência num verdeiro martírio...e durante quatro anos...ou mais. Esta convivência pouco salutar não se resume a música pimba aos berros ou ao cheiro a sardinhas assadas da churrasqueira da varanda do terceiro esquerdo. Para o condómino enganado esta vizinhança infernal traduz-se sim em decisões irresponsáveis, em indecisões covardes (muitas vezes piores que as anteriores) e a médio prazo, na ruína completa do bem colectivo que é o seu prédio...a sua cidade. O caro condómino tem de saber que, ao entregar a chave do condomínio ao vizinho aldrabão ou à empresa de vão de escada, está a assumir um risco tremendo, pois não são só as áreas comuns que são postas em causa, é também a sua casa e a sua vida que fica em risco.

Por falar em administrações de condomínio desastrosas, conheço um prédio, por acaso muito bem situado e com vista mar onde não são feitas as revisões aos elevadores desde 2013 e os elevadores sociais funcionam apenas e só para descer. Neste mesmo prédio, o condomínio não paga a água nem o lixo, apesar dos condóminos o fazerem, ficando com o dinheiro destes, acredita? Neste condomínio, contaram-me que a segurança foi completamente descurada, onde entra gato e sapato e os moradores têm medo de ir à garagem durante a noite. E como se isto não bastasse, alteraram os circuitos e os lugares de estacionamento ao ponto de os moradores não conseguirem parar o seu carro e muitas vezes nem sequer entrar no prédio, só se usarem bicicleta ou trotinete.

Dizem os moradores que as reuniões de condomínio são uma tragédia, o encarregado destrata toda a gente e não admite que os condóminos deem ideias ou façam reparos sobre o seu trabalho, às vezes abandona as reuniões e tudo. Este prédio em concreto, apesar de bem frequentado, apresenta-se completamente degradado e sem manutenção, mas em vez de obras, os condóminos recebem cartas de autopromoção da empresa a dizer que está tudo num mar de rosas. Caro vizinho, tome atenção, para o bem do seu prédio e da sua casa deixo-lhe um conselho: mais valem quatro maus anos do que um mau condomínio...e nunca acredite em vizinhos que se auto intitulem de confiança. Não são de fiar...