A vacina, a ciência e a liberdade

Há pouco mais de um ano começávamos a sentir os primeiros grandes impactos da pandemia. Depois de semanas de dúvidas e incertezas sobre um novo coronavírus que tinha sido identificado em Wuhan, o surgimento de casos e a escalada da situação levou-nos ao primeiro confinamento e a tudo o que já sabemos que aconteceu.

Mas, cerca de 10 meses depois do início da pandemia, tínhamos as primeiras vacinas a serem inoculadas por milhões de pessoas, num processo que nos levará ao controlo da pandemia e a um regresso paulatino a alguma normalidade. Conhecemos as atribulações que têm existido nos processos de distribuição e nas celeumas científico-políticas em torno de algumas decisões. Mas a questão essencial permanece: ainda antes de um ano desde o início da pandemia, e através do processo científico e do apoio político, a humanidade já tinha criado uma vacina e os resultados positivos das mesmas já se notam, com esta semana a ser especial, através do fim do estado de emergência.

Para além do resultado prático de nos resolver um problema com esta dimensão, a vacina e sobretudo o processo de desenvolvimento das vacinas assinala o papel da ciência e do pensamento científico na nossa vida, por oposição ao obscurantismo, ao pensamento mágico e aos dogmas.

Quando se fala em ciência, muitos imaginam o estereótipo de um indivíduo com características peculiares a fazer experiências, ou então um conjunto de aparelhos e de tecnologias. Mas o que a realidade atual e o surgimento da vacina enfatizam é o valor da ciência, não numa lógica de sucessão desenfreada de gadgets ou inovações tecnológicas, mas sobretudo do processo científico, do teste de hipóteses, da humildade de corrigir teses face a novos dados, de avaliar práticas, de debater abertamente ideias, de tomar decisões com base em dados e não em dogmas, de um processo em que o que tem força é a evidência apresentada e não quem a apresenta.

Num mundo marcado frequentemente pelo negacionismo, por pseudoterapias, pelo pensamento mágico, por teorias da conspiração, pela criação de “verdades alternativas” e de narrativas que se blindam e rejeitam qualquer dado que as contrarie, o sucesso da vacina e a sua gestão é o sucesso do pensamento livre e da forma como encaramos o mundo, do princípio da refutação e da possibilidade de as hipóteses serem testadas, avaliadas e corrigidas. Até porque a literacia e o pensamento científico não significam somente conhecer factos ou ter muitos dados; correspondem sim a forma como olhamos para o mundo.

É justamente este pensamento subjacente ao processo científico que tem um valor indubitável no progresso da sociedade, no apoio à tomada de decisão em políticas públicas e na nossa qualidade de vida, incluindo agora na perspetiva da resolução da pandemia. Porque se, como refere Carlos Fiolhais, a ciência é central para sairmos da crise mas não saímos da crise apenas com ciência, é sobretudo o pensamento livre e o humanismo que temos de valorizar. Foi isso que nos deu a vacina e será isso o que nos fará progredir. Num mês em que se celebra a liberdade, trata-se de algo que é sempre útil recordar. Quer estejamos a precisar de uma vacina ou não.