De mãos dadas

Quando as nossas mãos se amarram e acertamos o ritmo e o passo, a caminhada é a tarefa que nos acolhe e concentra.

Recomendada como exercício eficaz para maleitas que transportamos, pela periódica repetição ganhamos intimidade com o caminho que nos recebe e com a envolvência que nos conforta.

Há pouco, ao pisar as lajotas gastas da promenade, senti a ligeireza do menos peso (o que me tem custado perder banha em tempo de pandemia! kkkk).

Da minha companheira, ouvi passos mais firmes e marcados, mais seguros e decididos.

As mãos ancoradas são o elo de ligação. Não há vozes, nem palavras fúteis ou inúteis.  Pequenos toques e sinais vão-nos acertando o rumo e as voltas.

Palavras, cada qual tem-nas consigo.

Lançamo-nos em pequenos desafios que nos trazem pedaços de vida, num esforço de colar  lembranças  em desalinho, recolocando-as na listagem das memórias embaciadas que ainda permanecem, construindo a manta de retalhos da nossa história de vida.

Companhia permanente é a voz do mar, sem pausas nem dissonâncias. Os baixos em crescendo abrem vez aos tenores em contraponto. E quando o som abranda, logo os sopranos e contraltos em entrada brilhante reacendem a chama do coro majestoso da polifonia envolvente.

A espuma beija de branco as rochas que se espreguiçam na frescura cantante. Os calhaus rebolam de alegria com as marés que lhes trazem novas de longe.

O mar é confidente a lavar angústias e medos. Embala-nos na magia do seu vaivém; é colo para desabafos que derramamos ao ritmo da passada; é consolo e inspiração para a luta, para a resiliência.

As palmeiras acenam tristes, braços cansados, descoloridos, a revelar a saudade das terras a que pertencem, confessando o desgosto da deslocalização. Nunca se acomodaram às novas moradas…

As gaivotas planam, voam à bolina, desafiando o empurrão da ventania. Olho-as com a mágoa de não ser alado e poder partilhar a descoberta da quietude. Ir com elas, banhar-me no poente e só voltar ao luar…

Companheiros de caminho passam em ritmos diferentes. Uns a trote, outros em sprint, expelindo nuvens de aerossóis. Daí, a proteção que nos cobre a face.

Alguns em desânimo de enterro, outros em tom de parada. Há corpos em contrabaixo, outros em violino; uns em pipa, outros em taça.

Há passos de flamingo, há-os  de  elefante.

Há narizes empinados, ou costas corcundas.

Há a simpatia dos acenos e sorrisos, com a intimidade que se vai ganhando pela repetição das caras e trajeto.

As janelas encerradas dos hotéis ali à beira sopram-nos o voto de que breve se encham de risos e corpos em relaxe.

A Grande, a Pequena, o Bugio, Desertas plantadas além, dias há que parecem a cem braçadas de crawl. Outros, ficam refugiadas na cortina que as encobre.

Há quem se afoite às vagas e se abandone aos baloiços e rodopios das ondas e marés.

A nossa passada alivia o peso que nos apaga a agilidade. As mãos dadas são carícias de bem-querer, desincentivam o abrandamento, encorajam ao ritmo, porque os corpos precisam da fluidez do sangue e da oxigenação.

De vez em quando, apetece-me confidenciar com Ele, a quem abro o peito, revelando as angústias da incerteza do amanhã ou de quem comigo caminha, mas afincadamente luta em cada jornada de acordar incerto.

Há dias em que falo deles, dos que me são próximos e me poisam algum desalento ou desengano, mas também vitórias e combate, propósitos e metas de luz.

A caminhada é momento de entrega e desapego, que nos revigora e fortalece nas tardes calmas ou agitadas dos dias que vamos descontando no calendário da vida.