Seres humanos em pausa

É com incondicional estima que me dirijo a vós, agradecendo a oportunidade de reflectir convosco temas que me inquietam e que sinto também poder inquietar vossas excelências. Não há volta a dar em relação ao contacto que a grande maioria dos seres humanos tem com a tecnologia na actualidade, de modo particular e “casamenteiro” com os smartphones. Só falta toilete em alguns deles ou uma aplicação para recarregar a bateria sem carregador.

Muito se tem estudado, com mais acutilância talvez na área da sociologia, o impacto que esta realidade tem no comportamento humano, no trato com o outro e nas novas rotinas do quotidiano consubstanciais a este fenómeno. Alguns livros, que apelido de “rasgantes”, posso aqui enumerar:  Wish I were here de Mark Kingwell, o famoso trabalho de Sherry Turkle, Alone Together, entre muitos outros que não me ocupo aqui de escalpelar. Ainda que tal, não há estudo que negue este impacto, esta realidade. Está aí. As crianças de 10 anos dão baile nestas andanças às gerações mais de gente antiga e, mesmo assim, as gerações menos familiarizadas com o tsunami digital vão se chegando, colocam uma foto, arquitectam um perfil. É o mundo actual que saiu reforçado com o contexto pandémico, um contexto que nos brindou com o reforço da predominância tecnológica, remetendo ainda mais para um plano secundário o contacto directo e offline que já vinha sendo quase dogma nesses tempos de “normalidade” que dizemos querer voltar.

Entrementes, depois de ter lido alguns estudos acerca desta temática, deparei-me com um conceito que não tinha ainda conseguido colocar em palavras, mas que sentia diversas vezes. Pausing people. Colocar pessoas em pausa. Quem comigo tem o mínimo de trato sabe que não sou de mente aberta, sou sim de mente entreaberta e com filtro, caso contrário não aguentaria e, sejamos honestos, dependendo de cada qual e suas sensibilidades, há muita porcaria por aí, e uma mente entreaberta pode ser que não deixe entrar tanta. Mas como dizia, quem me conhece, também sabe que sou de vida real, a vida real offline, já que a vida online também é real. Este conceito de pausing people ou em português, colocando pessoas em pausa, é algo que talvez façamos todos os dias. Não digo isto em tom crítico, também estou no barco, não vivo na lua, mas ainda assim não deixo de reflectir sobre isso. Quando estamos numa conversa com alguém na vida real offline e interrompemos esse momento para verificar o whatsaap ou o Instagram e por aí adiante, estamos na verdade a colocar pessoas em pausa. Talvez não advenha grande mal disso, dirão. Não sei. Profissionalmente estes novos apetrechos são fundamentais. Outro ensaio interessante acerca desta matéria, defendia que os seres humanos andavam cada vez mais agitados e em stress pelo facto de os dias não terem se dividido em duas realidades, os dias não terem passado a ser de 48 horas. Dar a mesma atenção à vida real offline e à vida real online é um dos novos desafios e cada qual tem nas suas mãos a possibilidade de o abraçar com inteligência. O equilíbrio, a tão badalada fonte de sanidade, porventura pode ser que auxilie. Já existem as fugas de algo tão pequenino como o smartphone, desligando-o, colocando-o em modo avião, saindo para caminhar sem ele, retiros na montanha sem rede, sem tecnologia. Uma espécie de relação que começa a dar sinais de não ser assim tão gloriosa e estruturada. Será assim tão demoníaco? Será angelical? Certa vez o apelidei de “atazanalizador” do verbo atazanar. Verbo que muito prezo. Atazana a pessoa. A minha Mãe tem um telemóvel fixo, é para estar sempre no mesmo lugar e considero genial, assim não stressa, como está na moda dizer, apenas raramente atende as chamadas. O conceito de Global village de Mcluhan intensificou-se, mas talvez haja que saber ainda olhar para o “Local Village”. Quanto a mim, não faço melhor que ninguém, mas por vezes prefiro pausar a tecnologia e viver a vida real offline. E vós?

Por fim um recanto e um som da natureza:

Recanto: Rocha do Pombo em Ponta Delgada

Som: silêncio

Até mais outra…