“Magia do cara a cara”

Num tempo em que se anuncia o princípio do desconfinamento e no Ensino a possibilidade de um retorno ao presencial, apesar de todos os propalados encómios e méritos do on line, talvez nunca, como agora, este afastamento tenha evidenciado, como avaliação, aquilo que é uma das idiossincrasias na aprendizagem e na transmissão de conhecimento: criar emoções.

Vem isto a propósito das palavras recentes da escritora, também ela professora, Paola Mastrocola no La Stampa. No seu entender: “Há magia, mas esta só ocorre quando alunos e professores estão cara a cara (...). Quando dá aulas numa sala, um professor não só transmite conhecimento cultural direto, mas também algo mais misterioso, muitas das vezes inconsciente, e que é o verdadeiro ensino”. E acrescenta. “Vamos dar um exemplo: o professor lê um poema na aula, mas não se limita a fazer uma leitura em voz alta. Enquanto fala, diz mais coisas, através do tom de voz ou do olhar. Ao explicar um verso, pode corar, mover-se ou começar a rir: são estas emoções improvisadas que vão ensinar aos alunos o significado profundo daquela poesia!”.

Mas, não se pense que apenas de forma empírica se pode “medir” este sentimento no ensinar. Segundo Masanori Yatagai, especialista em Tecnologia da Educação na Universidade de Kyoritsu, Tóquio, a sensação estranha sentida durante as aulas à distância é explicada pelo facto de o “olhar do professor nunca cruzar o dos alunos”. Após ter feito um estudo com uma câmara e um espelho sem tonalidades, defende que “o olhar tem um papel essencial no desempenho dos alunos. E se estes não sentirem o professor a olhar para eles, perdem a sensação de estar na aula”.

Convenhamos, portanto, que se o chamado ensino à distância terá, apesar de tudo – longe de quaisquer fundamentalismos, os seus méritos fomentando a autonomia e a curiosidade dos alunos, incutindo o aprofundamento do trabalho colaborativo e do pensamento crítico, podendo inclusivamente diversificar as fontes de conhecimento; a verdade é que não substitui uma educação presencial onde os estudantes comparecem numa sala de aula física e aqui se opera o transcurso do Ensino e em grande parte a aprendizagem. Fórum, aliás, onde os alunos e o professor se moldam por forma a ajustarem ritmos e métodos.

Repare-se que nesta nossa perceção, nem sequer converge – o que certamente agravará mais os desequilíbrios, o verificar também, que esta realidade on line acaba dominada por aspetos técnicos, naquilo que é a instrumentalidade da tecnologia; por questões sociais, relacionadas com lógicas de igualdade e de poder; por perspetivas culturais, como afirma Pacheco (no Público): “que dizem respeito à escola em si e à sua gramática de regras formais e informais”; não esquecendo os interesses económicos, em que os gigantes tecnológicos se assumem como líderes na conceção e implementação da educação digital.

De resto, estudos recentes da OCDE (na passada semana em Portugal reiterados pelo IAVE) deixam claro que a falta da relação pedagógica, aliada à falta de recursos educativos digitais adequados (incluindo um amplo acesso à Internet) levam a não existir as mesmas oportunidades de aprendizagem para todos, havendo os que ficam -ainda mais- para trás, enquanto outros se desprendem numa situação de aprendizagem online.

Finalizemos, como iniciámos, com P. Mastrocola: “ninguém faz ideia de quanta liberdade existe numa sala durante uma aula (…) na mente daquele que fala e na mente do ouvinte, tudo é imprevisível e inesperado. É pura casualidade (…) não devemos eliminar as aulas presenciais. Seria como suprimir a imaginação, retirando a nossa confiança no misterioso poder da palavra. Seria como cortar a corda a um papagaio de papel”.

 

Eduardo Alves escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas