Boas Páscoas

A casa cheirava a favas cozidas, que se temperava em escabeche e serviam para um dentinho se aparecesse alguém naqueles dias de Páscoa.

E chegava sempre, porque na casa mãe a porta estava sempre aberta. Havia um prato com três divisórias, por cima do naperon bordado dos dias de Festa, com favas, tremoços e azeitonas, do lado dos salgados e bolos e broas do lado dos doces.  Na jarra as melhores flores de uma Primavera que se anunciava no jardim, sem uma ponta de modéstia e exuberante na sua vaidade,  e dava-se assim o ponto de partida para vários fins-de-semana de Festividades, o Espírito Santo, que era mais uma altura de comunhão e partilha na vida comunitária da aldeia.

O momento solene, que era aquela bênção anual dos lares, era seguido, como de costume, de tradições pagãs e confraternização, em que se assumia o papel de visita ou visitado consoante o sítio em que a visita Pascal se dava, das Achadas aos Picos. Um a cada semana, o que completava logo a agenda de convívios de mais de um mês. Uma honra e uma canseira para os festeiros, que, se não fossem disciplinados, acabavam inevitavelmente ébrios junto do pároco, quando entregavam as oferendas e devolviam as bandeiras muitas vezes com o cair da noite.

Antes era preciso passar pela Quaresma, que na altura era levada a preceito e não era pera doce. Aliás a doçaria estava abolida nos tempos que seriam de introspeção, com jejum e nada de carne às sextas-feiras, que era blasfémia. Às vezes roubava-se uma amêndoa do pacote do Balamento, às escondidas e sem ninguém ver. O sacrifício que levaria à bonança, como era explicado pelos mais velhos, para grande incompreensão dos mais novos, que não percebiam como é que a fartura não podia ser constante e que tinham de andar de semblante pesado na sexta-feira Santa e que ouvir música nesse dia era pecado. Também havia a tradição do inhame e de comer milho cozido no dia em que não se podia trabalhar depois das três da tarde, sobretudo na terra, que Deus não abençoaria a colheita.

Tinha de se esperar até domingo para comer os torrões de açúcar, que ovos só os da galinha que eram pintados na escola. Era mais do que um rito de passagem anual, era uma metáfora da vida, da dificuldade e da fartura, da agrura e da serenidade e uma lição, que cheirava a favas e laranjada, que também vinha à mesa nesses dias de Páscoa, que também era plural, porque afinal eram vários dias e ninguém estranhava o repetido Boas Páscoas.

 

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas