20 fevereiro 2010 vs 27 março 2021

Onze anos separam estas datas.

A primeira, uma marca histórica para todos os madeirenses, o dia em que a água revelou a sua verdadeira força, a natureza não deu tréguas e levou consigo tudo aquilo que estava à sua frente. Afinal, o caudal volta sempre ao sítio.

Foram 47 vidas perdidas, 250 feridos, 600 desalojados, 1200 famílias afetadas e mil milhões de euros em prejuízos. Nesse fatídico sábado, choveu 144mm/24h.

A 27 de março de 2021, o alerta vermelho era uma realidade. Choveu 197mm/24h, e as memórias de há 11 anos não deixaram nenhum madeirense dormir sossegado ao som da intensa trovoada. Mais precipitação, e os estragos? 33 pessoas afetadas, sem vidas ou feridos a lamentar. Um apagão, estragos físicos, algumas derrocadas, mas sem nenhuma estrada a ficar intransitável por muito tempo. 

11 anos volvidos e a lição foi aprendida? Os números parecem demonstrar que sim. A Madeira está mais resiliente e preparada a lidar com os eventos climáticos adversos, as nossas ribeiras aguentaram a força das águas pluviais (apesar de felizmente a maior precipitação não ter ocorrido nas zonas altas) e as nossas autarquias prepararam-se de forma diligente com as suas forças de proteção, segurança e limpeza para garantir que a natureza não nos pregasse sustos desprevenidos.

O empenho e a dedicação das autarquias, em especial a do Funchal, não passou despercebido. Do outro lado, não era o momento certo para fazer política com tendências eleitorais, especialmente quando após a intempérie de 2010, passados tantos anos, ainda muito ficou por efetivar.

Analisando os resultados, sei que devemos e muito destes bons resultados de preparação e resiliência a quem muitas vezes não recebe o devido mérito das suas ações e programa: a União Europeia.

Dia 28 de março de 2021 e ao acordar, foi importante perceber que o pior já havia passado, e que felizmente apenas os estragos físicos eram a lamentar.

Após o 20 de fevereiro, foi criada a Lei de Meios (pelo Governo da República) para fazer face aos prejuízos e à reconstrução exigida para nos tornarmos melhor preparados. De forma direta, a UE contribuiu com cerca de 300 mil milhões. Sei que por vezes, por estar longe ou por não ser conveniente, a UE é esquecida. Mas muito do que somos, da nossa forma de estar e viver, do nosso bem estar e proteção advém deste que é o maior projeto de solidariedade europeia dos últimos 70 anos: a nossa União Europeia. E como cidadãos europeus de pleno direito, nunca nos podemos esquecer do valor acrescido para a qualidade das nossas vidas que a UE proporciona.

Atualmente, pretendo uma diferenciação positiva para as regiões ultraperiféricas fazerem face às intempéries que se tornam cada vez mais frequentes na era das alterações climáticas largamente causadas pela ação humana. Devido à nossa vulnerabilidade reconhecida a fenómenos meteorológicos extremos, beneficiamos enquanto RUP de um tratamento preferencial ao abrigo do Fundo de Solidariedade da UE (com um limiar de 1% do PIB regional para o financiamento de operações de emergência e recuperação vs 1,5% para as outras regiões). Este é apenas um dos mecanismos que funciona em complementaridade com outros instrumentos da UE para ajuda em emergência e investimentos estruturais que podemos beneficiar. Entre eles, temos o Mecanismos de Proteção Civil da UE e os fundos de coesão, que apoiam investimentos e medidas de adaptação às alterações climáticas.

Hoje, celebramos o Domingo de Páscoa. Sofremos um grande temporal e um grande susto, que maioritariamente não passou de um grande susto, para a maior parte dos madeirenses.

Hoje, não falamos de há uma semana. É essencial que não esqueçamos que hoje somos mais fortes, estamos mais bem preparados, porque somos União Europeia. Viva o projeto europeu. Viva a UE.

 

Sara Cerdas escreve
ao domingo, de 4 em 4 semanas