O tempo dos falsos

Prometeu, o artesão que deu forma à humanidade, decidiu um dia esculpir a forma de Aleteia (a verdade), usando toda sua habilidade de modo que ela fosse capaz de controlar o comportamento das pessoas.

Enquanto trabalhava recebeu uma ordem de Zeus que pedia a sua presença. Prometeu deixou o astuto Dolo no comando de sua oficina, que recentemente havia se tornado um dos seus aprendizes. Dolo, senhor dos enganos e da artimanha, usou o tempo à sua disposição para moldar com seus dedos uma figura à semelhança de Aleteia, do mesmo tamanho, aparência e com características idênticas. Porém, quando se preparava para concluir a sua obra, que já estava verdadeiramente notável, ficou sem argila para modelar os pés e sem tempo para a repor, pois o seu mestre, entretanto regressara. Prometeu ficou impressionado com a semelhança das duas estátuas e acreditava que o crédito do trabalho do seu aprendiz era seu, devido à sua própria habilidade. Por conseguinte, colocou ambas as estátuas no forno e quando totalmente cozidas, infundiu vida em ambas. Porém, se a sagrada Aleteia caminhava com passos medidos, a sua irmã Pseudo, inacabada e falsificação produto de subterfúgio, o fazia a sua sombra, mas com passos inseguros e cambaleantes. 

O avanço das redes sociais foi o catalisador do milagre da multiplicação das contas falsas, isto é, de todos aqueles perfis nestas redes que não correspondem à real identificação da pessoa (ou pessoas) que a controla. Isto não é propriamente uma novidade. Desde tempos imemoriais que o homem procurou ser mais do que é. E se por um lado a sua ambição empurrou a humanidade na direção da descoberta, por outro também deu origem aos Tom Ripley’s desta vida. Desde sempre que o homem procurou ganhar vantagem para si ou para os seus através do logro e do engano, variando unicamente nas ferramentas que possuía para o efeito. A subtileza, a camuflagem e os diversos estilos artísticos eram a capa para a crítica social e chama para as revoluções. Mas tudo isto dava imenso trabalho e requereria enormes doses de talento e qualidade na arte. Mas hoje, com a democratização da informação e o acesso à mesma, países nascem e caiem sem sequer nos levantarmos da nossa cadeira.

As contas falsas são perfis criados por pessoas principalmente para enganar outros usuários, adotar identidades ilegítimas ou disseminar informações de maneira mal-intencionada. É uma estratégia com foco na aplicação de golpes, roubo de dados e no compartilhamento de notícias falsas, as tão propaladas ’fake news’. De uma maneira geral essas contas falsas usam, por exemplo, fotos e informações reais ou inventadas de outras pessoas, de forma a conquistar ‘amigos’ e obter informação ou espalhar, de forma dolosa, falsos rumores. São ainda utilizados para agredir, ofender e denegrir outras pessoas ou instituições, visadas sejam por razões de interesse pessoal ou motivadas por agendas coletivas.

De facto, esta despersonalização do utilizador está muito ligada à satisfação pessoal, à necessidade de se divertir e conhecer novas pessoas ou em atender a necessidades não satisfeitas na vida real. A industria dos jogos de vídeo percebeu isto: quem não se lembra do ‘The Sims’ ou mesmo da realidade virtual diária que foi o ‘Second Life’? Mas há o outro lado do espelho: o avanço tecnológico deu igualmente palco aqueles que sentem a necessidade compulsiva de controlar e vigiar comportamentos de outros, de se expressar de maneira mais ríspida ou para se vingar sem ser identificado, ou até àqueles que sentem prazer em enganar outras pessoas.

A partir daqui não há limites. E a verdade mistura-se com a mentira e é difícil perceber onde uma acaba e a outra começa. As redes sociais são um ópio para as mentes. É a terra prometida para todos e cada um de nós, cujo algoritmo junta quem como nós pensa, quem partilha dos nossos interesses, e que torna a nossa voz num gigantesco eco num mapa mundi à nossa medida. Alimentados pelos ‘gostos’ e pelas massagens ao ego, deixa de haver barreiras e o ‘outro’, o desagradável, passa a ser o inimigo. E os extremos extremam-se. E profissionalizaram-se. E os ‘falsos’ passam a armas, criam páginas, criam grupos, criam notícias , criam eventos, e tornam impossível a convivência entre pessoas que não estejam do mesmo lado. Influenciam decisões, massas e em grande escala interferem em eleições e decisões major, como vimos bem recentemente nos Estados Unidos e no Brasil, ou colocando em risco a saúde pública como em muitos casos relacionados com a pandemia. Vilipendiando o passado e deturpando o presente, modela-se um futuro fundeado no engodo e no engano.

Hoje o mundo está entregue a Pseudo. E os falsos proliferam e prosperam. Mas Alteia, a verdade, com o tempo, irá prevalecer. Porque caminha pelos seus próprios pés. Escreveu Sófocles “que nenhum ser humano se considere totalmente feliz, até haver chegado, sem os dolorosos golpes do destino, ao último dia de sua vida”.