Os becos da câmara

Em meados da década de 1940, Fernão de Ornelas, então presidente da CMF, sobrepondo-se à polémica em torno da construção da rua que em 1946 seria baptisada com o seu nome, a uma pergunta, na época pertinente, sobre a razão de estar a contruir uma rua tão larga, para um burgo tão pequeno, respondia que “esta rua, mais tarde, ainda será um beco”. A actual vereação camarária que, no início do seu mandato, se disse inspirada nesse grande autarca funchalense, tratou de dar-lhe razão, transformando essa emblemática rua num beco, causando graves constrangimentos aos transeuntes e aos comerciantes aí localizados.

Não ficando satisfeita com isso, tratou logo de continuar o seu fulgor de estreitar tudo o que são ruas largas e decidiu fazer das estradas mais imponentes da cidade novos becos. É o caso da nova ciclovia, na estrada monumental, que reduz a circulação rodoviária a apenas uma via no sentido Oeste-Leste da cidade, com os graves constrangimentos para o trânsito e inconvenientes para os peões.

Estiveram os governantes madeirenses, desde José Silvestre Ribeiro, no século XIX, até ao período das grandes obras realizadas já durante a instituição da Autonomia, envidando esforços, enfrentado grandes dificuldades económicas, para construir novas estradas e alargar as já existentes, na cidade, como é o caso da Avenida do Infante e da Estrada Monumental, de forma que a circulação automóvel fosse fluida e não causasse dificuldades àqueles que as usavam, para virem agora estes vereadores visionários apertá-las, transformando-as em autênticos becos, com o argumento de “garantir melhores condições para a prática da bicicleta”. Estamos de acordo com a construção de uma ciclovia, desde que não afecte directamente aqueles que circulam em transporte individual motorizado e que necessitam dele para a sua vida profissional e particular. Construam-na fora do âmago da cidade. Há sítios específicos para as bicicletas. Veja-se o troço da ciclovia que vai desde o nó do Lido até ao início da rua de Saint Helier (junto ao Fórum) onde não se vêm bicicletas. Elas andam na estrada causando transtorno e dificuldades aos condutores dos veículos motorizados e por vezes até alguns dissabores aos próprios ciclistas que muitas vezes circulam nas estradas com deficiente sinalização.

O investimento nesta ciclovia é de cerca de 1,5 milhões de euros que bem poderiam ser investidos noutras áreas mais produtivas e carenciadas, que chegassem a uma grande fatia da população, por exemplo àqueles que perderam os seus empregos devido à actual pandemia e aos empresários que lutam tenazmente para não fecharem as portas dos seus negócios.

Não é admissível que com tantos problemas que afectam as populações do Funchal, em especial os causados pelo COVID 19, se invista numa ciclovia que não há-de servir para nada, senão para uns poucos se pavonearem de bicicleta.

A insistência na construção desta ciclovia, que dificulta, em especial, a vida dos profissionais que necessitam dela no seu dia a dia, ainda vai custar a derrota desta equipa camarária nas urnas no próximo Outubro. Ouve-se em surdina os protestos dos cidadãos contra esta obra, nomeadamente dos condutores de transportes públicos e dos taxistas que vêm a sua vida profissional dificultada. Eles têm família e com certeza os seus votos não serão para esta nova/velha coligação pelo Funchal, que se começa a insinuar.