Daquilo que se perde

Estes dias que antecedem a Páscoa obrigam-nos a olhar para dentro, à procura das razões que nos fazem andar para a frente, mesmo quando o chão treme debaixo dos nossos pés; que nos permitem olhar para o céu (azul, o céu!), mesmo quando os olhos se prendem aos nossos pés, que nos deixam perceber a gramática deste estar-aqui, onde às vezes se canta e outras se chora. 

Perdemos tanto, ao longo deste último ano: perdemos gente, perdemos vida, perdemos esperança, perdemos afetos, perdemo-nos para a indefinição do que há de vir. Fomos obrigados a abrandar, a parar, a redefinir prioridades.

Perde-se muito, ao longo da nossa vida. Mas ganha-se tanto! Talvez por isso valha a pena acreditar. Apesar da falta de respostas para a Sexta-feira Santa, percebemos que, sem a nossa fragilidade, não daríamos tanto valor ao Domingo. 

Às vezes, duvidamos. Interrogamo-nos. Ficamos à espera de respostas que nos garantam que sim, que há coisas que nos transcendem, como a beleza, por exemplo, ou o sentido do sofrimento, ou a aceitação da morte. A verdade, porém, é que “as perguntas mais interessantes permanecem perguntas. Encerram um mistério. (…). Só as perguntas sem interesse têm uma resposta definitiva” (Schmitt, 2007:76).

É assim a Semana Santa: um mistério que nos obriga a pensar em perdas e em perguntas sem resposta, mas a lição da Páscoa é que da morte se faz vida e isso é verdadeiramente maravilhoso. Talvez por isso a Páscoa aconteça na primavera que é o tempo certo para perceber que a semente germina na solidão da terra, que a cruz levanta os olhos para o céu, que, apesar da nossa humanidade, somos habitados pela possibilidade de Deus. 

A Páscoa também nos ensina a amadurecer. Afinal, a semente precisa de morrer, o sol só acorda depois da noite, a paz só se encontra no silêncio.

Este é o tempo de agradecer aquilo que se perde. E os vazios que ficam livres para sermos abril, outra vez. E as lágrimas que, afinal, só serviram para regar a escuridão e alimentar o por-dentro. E o buraco que a cruz abre no céu, para nos permitir ver mais longe. E isso muda tudo.