O culto da mediocridade

A antiga expressão “nunca passou do Garajau para lá”, significa alguém que nunca saiu da ilha e para quem o mundo se circunscreve ao quintalzinho que acaba no promontório que marca um dos extremos da baía do Funchal. Por ausência de concorrência ou termo de comparação, esta mundividência pequena tende a perder a capacidade de relativizar as coisas, valorizando orgulhosamente talentos ou qualidades onde avulta unicamente a mediania ou a mediocridade. E deslumbra-se com o horizonte limitado das coisas que conhece ou vê. Neste limbo de vulgaridade, potenciado pela ignorância e encalhado num marcelismo cultural, ganham destaque os feudos dos mais bem posicionados por um qualquer ascendente ou clã, que açambarcam todas as oportunidades, na exaltação de qualidades medíocres tidas pelas melhores ou únicas. Ele é o especialista de coisa nenhuma que, com a sua sapiência de papagaio sem vergonha, endromina incautos e chafurda em todas as áreas, ele é o cronista que não sabe escrever, nem acrescenta valor, a quem se dá protagonismo para marcar agendas, são os fóruns opinativos onde se tropeça em lugares comuns ou argumentação carroceira, sem elevação ou pedagogia crítica, ele é a moça que não canta nada mas vai de favor à televisão orgulhar a embevecida surdez familiar, ele é o burgesso engravatado que debita de ouvido nas lides partidárias, ele é a politiquice transformada em passaporte para ascensão na pirâmide social, etc. 

Curiosamente, o húmus insular está repleto de talentos e genialidade, relegados para o esquecimento ou corajosamente para além-mar. Perdidos no jogo abjecto do jeito dado a quem não tem capacidade, do culto da mediocridade rancorosa e atemorizada com o valor alheio, da pequenez que não consegue distinguir a banalidade da excelência.

Ser medíocre é fatal condição do destino para muitos e deve merecer humilde e cristã condescendência, sobretudo quando o visado alegremente não tem consciência disso ou, quando a tem, desportivamente a aceita e até admira e se entusiasma com o brilho alheio.

Há, porém, uma horda aprisionante de medíocres que, tendo noção da sua menoridade, incendeia interiormente de ódio ante aqueles que por graça divina ou natural dela se distinguem. E bastas vezes só o mero cintilar da aura de alguém suscita à escuridão do medíocre uma necessidade de compensação vingativa. E este, porque sabe que a glória e o brilho não lhe estão naturalmente reservados, em lugar de tomar parte de uma força motriz que permita a quem se distingue poder aspirar a coisas mais altas, procura invejosamente destruir todos aqueles que se vão da lei da mediocridade libertando.

Se um acaso do destino ou um talento natural desabrocha, logo a mesquinhez venenosa do vizinho o procura deitar abaixo, vilipendiando-o ou ridicularizando-o. Se o talentoso procura êxito além-fronteiras e o atinge extraordinariamente, o mesmo que o procurou abater, será o primeiro a dar o dorso servil da bajulação, engrandecido por feitos que procurou liquidar. Já aquele será o maior desde que nasceu e até jogaram à bola juntos. 

Só através da sã concorrência, da igualdade de oportunidades, da liberdade de criação, do nivelamento por um patamar superior, se poderá criar um universo de estímulos evolutivos. A chave para que o rasgo de brilhantismo vença a mediocridade que inibe o desabrochar de verdadeiros talentos e qualidades.

E o mais delicioso é ver a insolência de medíocres insuperáveis, ou bem-sucedidos, a pugnar e enaltecer a meritocracia.