Mercearia e independentes!

Há evidências que não se compadecem com subtilezas: O líder regional do BE afirmou por duas vezes a este Jornal (o único que achou relevante esta importante questão) que apenas entraria na coligação de esquerda e extrema esquerda com o PS, e mais dois ou três partidos satélite, se lhe fossem garantidos lugares elegíveis na vereação, Assembleia Municipal e, pasme-se, empresas municipais!! Talvez fosse justo felicitar este inédito pragmatismo e clareza públicos. Como este entendimento não foi desmentido pelos interessados, seja lá quem lidera o processo eleitoral do PS no Funchal, temos de assumir como "boa" a revindicação bloquista. Do mesmo modo, como foi anunciado pelo PS autárquico que o Bloco de Esquerda acompanha o PS na coligação esquerdista, temos de admitir que estarão já negociados e acertados os lugares exigidos pelos bloquistas. Deixem-me demonstrar a minha perplexidade pela indiferença acrítica com que todo este indecoroso processo tem sido recebido pelas restantes forças políticas e correspondente opinião pública e publicada. Não me recordo de tão escandalosa negociata da chamada "mercearia dos lugares". Mas vai tudo bem.

Independentes que são mais do que militantes

O PSD-Madeira tem cerca de 7 mil militantes. Nas últimas eleições diretas nacionais, que até foi particularmente disputada entre Rio, Montenegro e Pinto Luz, menos de 30% estava em condições de votar. Não obstante as polémicas que aconteceram nessa data, apenas 20% foi efetivamente votar. Vem isto a propósito duma corrente política da nossa praça que, tentando enganar sem pudor o eleitorado, insiste em apresentar candidatos na qualidade de "independentes" na espectativa que o vulgar cidadão os percecione como mais desprendidos, menos alinhados com as dinâmicas partidárias, resumindo, mais "puros". Treta!!!  Estão, natural e convictamente muito mais enredados nos sinuosos labirintos partidários que qualquer militante de base, sendo até estranho que essa estratégia pueril seja repetida, mesmo depois Cafôfo ter mostrado, com a sua passagem meteórica de "independente" a líder partidário, que essas supostas independências não passam de jogos de sombras mal engendrados.

Alguém que participa em Congressos, conselhos regionais e nas mais importantes decisões políticas de determinado partido pode ser considerado independente? Claro que não! Na lista da coligação de esquerda para a Câmara do Funchal, é garantido que os falsos independentes em lugares elegíveis votaram, por exemplo, nas diretas do PS de 2014, quando António Costa depôs Tózé Seguro. Confusos? relembre-se que nessas diretas puderam votar simpatizantes que se inscrevessem para o efeito. Que diferença tem alguém que se inscreveu como militante do PS de outrém que se inscreveu para votar no líder desse mesmo PS? Porventura o segundo é ainda mais militante que o primeiro, pois está mais envolvido. Logo, os candidatos ditos "independentes" do PS para a Câmara do Funchal são não verdade menos independentes que, também a título de exemplo comparativo, os 80% de militantes do PSD que não se deslocaram às urnas para eleger Rui Rio!

Na verdade, e embora o PS insista em tentar confundir movimentos de cidadão independentes, como existem na Ribeira Brava e São Vicente, com coligações de partidos que incluem elementos sem filiação formal, mas que são mais militantes que a maioria dos militantes, há algo que não pode ser desmentido: Numa coligação todos os elementos que fazem parte da lista são indicados por um determinado partido. Não há, claramente, quem vá como "independente". É de lei, e tudo o resto é conversa fiada para enganar inocentes. Na próxima coligação CONFIANÇA o PS indicará 4 ou 5 elementos elegíveis, incluindo o cabeça de lista, e o BE, depois de satisfeita a sua exigência, indicará 1 ou 2. Essa referência estará inscrita na lista entregue no tribunal, quer os respetivos partidos e candidatos queiram insistir com o teatrinho dos falsos independentes, ou não. E mesmo que a imprensa se coloque no papel cúmplice de rotular de "independente" quem, na verdade, não o é.