Todo o mal do mundo

O senhor Caires está sentado à mesa num restaurante, quando vê entrar dois tipos baixos e atarracados, ambos de bigode preto reluzente, envergando sobretudos caqui, indivíduos que o senhor Caires nunca tinha visto à frente e que lhe pareceram altamente suspeitos, por causa daquela roupa ridícula, como se tivessem saído de um filme a preto e branco dos anos 40, cheio de bandidos com revólveres a dar tiros secos – pá, pá, pá – estão a ver a cena? – pá, pá pá – tiros que abatiam pessoas sem que delas vertesse gota de sangue e o rosto dos bandidos metia medo por causa do jogo de luz e sombra que há nos filmes a preto e branco. Era este o aspeto dos homens que entraram no restaurante.

Os pensamentos do senhor Caires confundiram-se uns com os outros e, como num sonho, caíram no abismo do fim do mundo. Para se salvar, desvia os olhos para o jornal, do mesmo jeito que o náufrago faz com os braços quando encontra um pedaço de madeira a flutuar, e põe-se a ler coisas que nem sequer estavam escritas.

Sentados numa mesa ao fundo, os homens de bigode preto e sobretudo caqui estão com os olhos bem fixos no senhor Caires, como se estivessem a estudá-lo ou a dissecá-lo à distância, em silêncio, atitude que lhe trouxe à memória fragmentos de histórias sobre extraterrestres, conforme as relatam no Canal Odisseia, pessoas que foram abduzidas – estão a ver a cena? –  e, de repente, despertam no meio de operações cirúrgicas levadas a cabo por médicos marcianos e depois perdem a consciência outra vez e, por fim, acordam nuas e atordoadas no meio duma floresta ou na berma duma estrada rural. É este tipo de histórias que se vê nos olhos dos homens de bigode preto e sobretudo caqui.

Mas, para já, o senhor Caires não lhes presta muito sentido.

Os homens de bigode preto e sobretudo caqui não param de olhar para a sua mesa. Que diabo! – Diz o senhor Caires entre dentes. E, para se distrair, vai folheando o jornal, até esquecer a situação. A certa altura, ajeita-se na cadeira, estica os braços para a frente, entrelaça os dedos e fá-los estalar. Crac. Depois move o pescoço para um lado e para o outro e o pescoço também estala. Crac. Crac. Pelo meio, deita uma olhadela aos homens de bigode preto e sobretudo caqui. Eles continuam lá, com os olhos postos em si. Um tem o olhar frio e mau. O outro doce e sereno, mas vê-se que é capaz de matar como uma criança inocente.

O senhor Caires cruza as pernas e volta à leitura do jornal, mas agora sente-se invadido por um leve incómodo, qualquer coisa como um calafrio, uma inquietação que vai do coração ao estômago e do estômago à cabeça. Qual será o interesse daqueles tipos na sua pessoa? As glândulas sudoríparas do senhor Caires entram em ação, ao mesmo tempo que os dedos dos pés e das mãos ficam gelados, e ele decide sair dali rapidamente.

Ergue o braço para chamar a atenção do empregado e faz o gesto de pedir a conta, que consiste numa rápida escrita no ar. Os homens de sobretudo caqui e bigode preto levantam-se nesse preciso momento. Um dirige-se ao balcão, onde o empregado está a preparar a conta; outro, o que tem o olhar frio e mau, avança na direção do senhor Caires.

Então, o abismo do fim do mundo abre-se inteirinho na sua mente e ele fica lívido como a espuma das ondas numa praia virgem e agreste. Seca-se-lhe a garganta e o raciocínio transforma-se em fumo, um fumo negro, denso, tóxico, como o fumo de milhares de pneus em chamas numa lixeira do terceiro mundo. Uma ligeira tremura toma-lhe conta das mãos e depois o sangue para, ou talvez engrossa, como se lhe tivessem adicionado areia.

– Duarte Caires? – Pergunta o homem, com tal frieza que o seu nome se transforma em pequenos cubos de gelo, cada sílaba um cubo de gelo, cada letra um cubo de gelo.

– Sim – balbucia.

– Parabéns pelas crónicas! – Diz o homem.

E estende a mão para o saudar.