Uma peta fechada numa gaveta

A tradição de dedicar um dia à mentira terá surgido no século XVI — em França, diz-se — com a adoção do Calendário Gregoriano em substituição do Juliano, em vigor desde 46 a.C., ano em que Júlio César oficializou a divisão do tempo que hoje ainda praticamos — 365/366 dias, agrupados em 12 meses.

De acordo com o Calendário Juliano, a passagem de ano era assinalada com a chegada da primavera, em festejos que decorriam entre 25 de março e 1 de abril. O novo calendário estabelecia o início do ano a 1 de janeiro, uma alteração que encontrou alguma rejeição, quando decretada pelos monarcas europeus. Assim, os súbditos que aprovaram a mudança decidiram arreliar os antagonistas, enviando-lhes convites para festas falsas, o que, com o tempo, acabou por se transformar numa diversão e alastrar pelo mundo com diferentes designações — April Fools' Day, nos países anglo-saxónicos; Pesce d'aprile na Itália e Poisson d'avril, na França. Por cá, chamamos-lhe Dia das petas.

Desde tenra idade sabíamos que 1 de abril era o dia em que podíamos mentir, sem arrependimentos nem culpas. Nem mesmo as freiras da minha escola se opunham a tal brincadeira. Claro que não podíamos inventar uma mentira qualquer; tinha que ser inofensiva, pois, de outro modo, seria pecado. Nada que nos desencorajasse. Passávamos o dia tentando-nos, mutuamente, apanhar desprevenidos. Era de toda a conveniência que as mentiras fossem pouco elaboradas para serem credíveis. Uma invenção estapafúrdia levantaria suspeitas e causaria o insucesso do objetivo. Podia ser com algo tão pueril como:

— Tens um mato na cabeça —, ou — o teu lápis está no chão.

Quando o enganado esboçava o gesto de corrigir o que estava mal, já o mentiroso ria e exclamava:

— Uma peta, fechada na gaveta — Infalivelmente, seguia-se a risada de todos.

Outra exigência indispensável e, para mim, a mais difícil era conseguir manter um ar convicto, com o olhar firme e sem o mínimo vislumbre de riso. Grande era o esforço que tinha de fazer para não soltar a risada antes do tempo.

Mesmo em contexto familiar o jogo prosseguia:

— Vai lá dentro que a mãe chamou. E o outro, mesmo se suspeitando, ia verificar (porque autoridade dos pais não se discutia), para ouvir a progenitora dizer que não o chamara. O mentiroso, que lhe seguira os passos, cantarolava vitorioso:

— Uma peta, fechada na gaveta.

O enganado fingia-se zangado, mas já congeminava forma de se vingar e, dessa vez, ser ele a cantarolar: uma peta, fechada na gaveta.

Os nossos pais também entravam no jogo e surpreendiam-nos com um qualquer anúncio que se vinha a provar falso e nos punha a rir ou a amuar.

A imprensa, tal como hoje acontece, não ficava de fora e elegia uma novidade falaciosa para publicar. A discussão sobre qual das notícias, do Jornal da Madeira e do Diário de Notícias do Funchal, seriam as petas desse ano era assunto debatido durante o almoço. A ele se viria juntar a da TV, após o início das suas emissões.

Entre amuos e gargalhadas, o dia das petas chegava ao fim e, no dia seguinte, mesmo sem necessidade de polígrafo, as verdades eram repostas.