A estupidez insiste

Em 1947 é publicado o livro “A Peste” de Albert Camus, claramente uma obra intemporal, se quisermos um axioma existencial, no qual se verifica que o ser humano é um ser de repetição, perante situações semelhantes reage da mesma forma. Quando Camus retrata Orão, cidade costeira na Argélia, perante uma crise sanitária, o comportamento do homem perante a mesma é facilmente reconhecido nestes tempos de pandemia actual.

Não existe qualquer desprimor em que assim seja, sendo um animal e um ser que acima de tudo sobrevive com o cumprimento de necessidades básicas, a repetição não é mais que uma definição existencial, somos o que somos, obviamente que nos é reconhecida a capacidade de adaptação, de evolução, de inteligência e de sonho num futuro por nós criado, mas no final somos uma história de repetição adaptada as circunstâncias da actualidade vigente.

Quem hoje relê a obra ficcionada de Camus, valida o seu génio e capacidade de análise sobre o homem e seu comportamento, é redutor avaliá-lo como existencialista ou niilista, e o termo absurdismo para a sua escrita, cai numa depreciação semântica, pois a riqueza da mesma, reside na sua realidade e visão concreta do homem, das suas relações com o mundo e com a sua existência, que sim, é de facto o absurdo que se trata, o conflito entre uma existência cujo significado não nos é dado a conhecer (existindo), e a nossa inabilidade em encontrá-lo ou se quisermos a nossa habilidade em criá-lo, mas o termo absurdo, limita o todo que comporta.

Não irei aqui revelar esta obra-prima, mas deixo alguns pensamentos que se adequam ao presente. “Os flagelos, com efeito, são uma coisa comum, mas acredita-se dificilmente neles quando nos caem sobre a cabeça”, os negacionistas do hoje aqui se enquadram na perfeição, e sabemos que os existem em todos os estratos sociais inclusive em indivíduos de formação superior, Camus acrescenta que a crença nestes flagelos como sonhos maus que irão passar, levam a que o homem na sua condição finita, é que passe, por não ter tomado as devidas precauções. Um dos problemas destes flagelos como lhe apelida Camus, é o sonegar a vida imaginada do imediato, e por ora colocar em espera ou hipotecar o futuro, logo é mais fácil negar o flagelo, mantendo assim a vida como era imaginada, “Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões (…) Julgavam-se livres e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos.” 

“A estupidez insiste sempre”, no decurso desta pandemia, poderei acrescentar que à estupidez foi dado um papel de destaque, a precipitação típica do homem pouco ponderado é constante, a não observação de uma visão estratégica, consubstanciada em verdade e rigor, é substituída pelo medo, ou pelo típico jogo de pressões de bastidores, em que o interesse de todos não é observado. Podemos observar por exemplo na medicação de tratamento, o tempo de antena que é dado a putativos medicamentos sem que exista validade técnico científica, tivemos no início da pandemia a já famigerada hidroxicloroquina, com prime-time em telejornais, manchetes de jornal, e múltiplos “estudos” propalados pelas redes sociais, hoje em dia outros seguem-lhe as pisadas. Existem autoridades oficiais do medicamento e entidades independentes que promovem essa avaliação e curiosamente todos os que tem sido publicitados, não aparecem nas avaliações oficiais, o que obviamente é um argumento para a desinformação pois “são baratos logo ninguém tem interesse em vendê-los”. A Agência Europeia do Medicamento apresenta neste momento 1 medicamento aprovado para Covid-19, 4 com revisão completa e passíveis de utilização, 3 em avaliação e 57 em investigação e desenvolvimento “EMA Covid 19 Treatments”. 

A pausa na vacinação foi outra demonstração de que a Instituição Europeia nem sempre toma decisões racionais, não existiu, nem existe até ao momento no plano técnico cientifico razão para a pausa da vacinação, pior é a consequência em termos de descredibilização desta vacina, mas também de toda a vacinação, gerando na população receios e rejeição, baseados na desinformação que se gerou, alimentada por uma comunicação social cada vez mais tabloide e menos rigorosa e informativa, e propalada pela ignorância que vinga nas redes sociais.

Com rigor e ciência iremos passar por esta pandemia, mas sempre alerta, pois a Estupidez Insiste Sempre.