O equilíbrio

A Madeira foi conquistada, não foi apenas descoberta. A história da Madeira e dos madeirenses foi sempre uma epopeia da conquista da terra e da generosidade da terra e da entrega do trabalho sempre obtivemos o devido sustento. Esta transformação, esta disputa hercúlea contra a adversidade de um território, que tinha tanto de fértil como de hostil, à luz de algumas cabecinhas iluminadas não passou de um crime hediondo contra a natureza, natureza esta que deveria ter-se mantido intocada, virgem para todo o sempre… maldito Gonçalves Zarco e restante pandilha de navegadores.

Esta nova retórica negacionista perante tudo o que mexe, quer seja em terra ou no mar, tem contornos cínicos. A argumentação medra (é mesmo assim, não me enganei) no seio de uma minoria privilegiada, servida e bem de vida, mas nem sempre de bem com a vida. As ecológicas ideias vêm acompanhadas na maioria dos casos dos smartphones, dos ipads desta vida, de uma urbanidade descomprometida e folgada, sempre verde e muito saudável. Até aqui nada de errado, não tenho nada com a vida de cada um, são adultos e supostamente responsáveis, o problema é quando este activismo militante e delirante interfere com o futuro da nossa terra de forma perniciosa e leviana.

Este apocalíptico contraditório ambiental, até seria desafiante se as razões elencadas fossem racionais, mas não o são. Estas razões, muito pouco razoáveis refletem apenas os pontos de vista e as opiniões de uns poucos. Refletem também o egoísmo e o comodismo dos mesmos e é aqui que reside o perigo. Com o comodismo vem o imobilismo, de seguida a apatia e por fim a decadência. Eu não quero uma ilha com paisagens bonitas apenas para partilhar no Instagram, quero uma ilha com paisagens bonitas para viver, não para sobreviver. Quero paisagens, mas também quero futuro, não aceito o maniqueísmo destes vendedores de banha da cobra biológica e “glúten-free” que querem impingir uma ideia peregrina de um futuro verdejante, omitindo que o que tem de verde tem também de esfarrapado e indigente.

Como explicar aos nossos antepassados que forraram as nossas montanhas com poios de pedra aparelhada, que sulcaram as nossas serras para lançar levadas e túneis impensáveis, que enfrentaram vales profundos para lançar estradas e caminhos únicos, que não havia necessidade de tanto trabalho e que a Laurissilva afinal é uma floresta indígena. Como explicar que foi tudo um desperdício e uma inconsciência e que deviam era ter ficado no calhau e que se quisessem passear que andassem a pé e de preferência descalços. Mas atenção, que nem pensassem em pescar, muito menos aventurarem-se na aquicultura, porque o mar é azul, é bonito e até tem peixinhos.

Tenho para mim que na Madeira sempre existiu um equilíbrio estável entre as conquistas do trabalho do homem e a natureza. É normal que num território tão diminuto e abrupto as pressões e sobreposições surjam e que em algumas situações as soluções encontradas não foram as perfeitas, mas sim as possíveis. Em termos relativos, temos das maiores áreas naturais protegidas, tanto terrestre como marítima da Europa, temos também uma significativa densidade populacional, factos que só por si introduzem um grau de complexidade acrescido neste equilíbrio. Nos últimos anos, a forma como o território tem sido ocupado e cuidado tem sofrido alterações muito positivas e os planos e as ferramentas agora disponíveis permitem uma gestão mais eficiente e responsável do espaço partilhado pelo homem e pela natureza e também do espaço que só à natureza diz respeito. Não queiramos de forma abusiva e fundamentalista perturbar esta coabitação, que dura há já 600 anos e que até não tem corrido mal… os nossos visitantes que o digam, os racionais e os irracionais.