A Covid tirou-nos a roupa

Estamos cheios de frio de humanidade!

FRIO?

Quando ouvi falar da situação da China (pandemia e mortes) estranhei não terem ido profissionais de saúde do mundo ajudá-los. Meses depois, a pandemia deu a volta ao mundo. Se o mundo fosse mais quente (humanidade) a movimentação de profissionais tinha salvado vidas e trazido mais conhecimento ao nível do tratamento e prevenção da doença. O fenómeno “cada um por si” e com muros bem altos nas fronteiras foi estranho mas real.

Ironicamente, os primeiros a vir ajudar a Europa foram os chineses (Itália). E assim começou alguma movimentação de profissionais que salvaram vidas. Cometeram-se erros de conhecimento que podiam ser evitados. A China ensinou que, mesmo construindo um hospital em dias, é obrigatório confinar (prevenção da doença).


NUS?

A situação pandémica veio mostrar as fragilidades do Serviço Público de Saúde (SPS) no mundo todo. É verdade que esta situação de pandemia é nova, mas não se viu grandes diferenças na resposta do SPS. A fragilidade do SPS mundial veio ao de cima. Talvez porque a saúde/doença continua a ser vista como um negócio, nestes dias debate-se/observa-se o negócio das vacinas (cura da Covid), o país que tem dinheiro tem vacina, quem não tem, não tem vacina. Tirar as patentes das vacinas é uma solução. Ficaria um bem público que facilitaria a vacinação mundial, a única cura da Covid. Mas o dinheiro e o lucro parecem falar mais alto, neste caso, algo pouco inteligente num mundo onde a movimentação de pessoas garante muitas economias, como a da hotelaria na Madeira.


NUS e com FRIO?

A pandemia colocou a nu as desigualdades sociais.

Os governos publicitam o que fazem, mas na verdade a desigualdade não é visível aos olhos. É tão invisível que, de modo muito FRIO/GELADO durante esta pandemia gritamos igualdade de comportamentos sem garantir igualdade de condições ou competências.

Uns com roupa, outros sem roupa, mas todos com frio!

Gritamos:

Não estejas com ninguém, mesmo que a tua cabeça não aguente.

Fica em casa, mesmo que não tenhas casa.

Isola-te da tua família, mesmo que vivam num só quarto.

Não vais trabalhar, mesmo que sem trabalho não possas comer (precários).

Vai trabalhar com a tua doença crónica, mesmo que o autocarro esteja cheio de gente.

Fica em casa, mesmo que sejas vítima de violência.

Não saias de casa, mesmo que fiques sem poder andar depois (idosos).

Evita o hospital, mesmo que a tua doença não-Covid seja grave.

Ajuda o teu filho nas aulas, mesmo que “não saibas ler”.

Fica sozinho, mesmo que tenhas poucos meses de vida.


GELADOS?

O mais grave é que apanhar Covid (uma doença) é tornar-se criminoso, negligente, irresponsável, egoísta, assassino e tantas coisas mais. Como se ter uma doença que para muitos tirou a vida já não fosse suficiente…

Os “gelados” acusadores são muito aplaudidos, alguns, mais grave, com lugares no governo ou nas autarquias. Triste.

Confesso que não me chocou as desigualdades, nem o estado do SPS, são as grandes lutas do BE, chocou-me foi este ignorar e desrespeitar as pessoas que estavam por detrás destas desigualdades, exigir o impossível, acusá-las, em vez de lhes dar condições mínimas para garantir o cumprimento de medidas de prevenção. É dever do governo assumir/NU as desigualdades e avançar para as reduzir, porque o não cumprimento de muitos deve-se apenas a esta razão.

Afinal o vírus que passa num abraço, num beijo, numa boa conversa, na socialização que previne a doença mental é muito fácil de controlar! Para quem?