Uma experiência do #@%@&*$!

Há muitos anos vivi num país onde o recolher obrigatório era uma realidade diária e musculada. Quando chegava a meia-noite se alguém fosse visto na rua corria o risco de ser rapidamente capturado por qualquer patrulha colocada em pontos estratégicos da cidade. Não era isso que nos levava a deixar de conviver com os amigos. Contudo, todos tínhamos uma preocupação: nunca chegar a casa depois da meia-noite.

Um dia, após mais um fantástico convívio, saímos às 23h45. Morávamos relativamente perto, não havia trânsito e tínhamos carro. O que poderia correr mal? Nada! Rien de rien! Nothing at all! Gar nichts! Despedimo-nos, metemo-nos no carro e partimos contentes rumo a casa. Ao fim de 5 minutos, notámos que havia algo de diferente. A viatura parecia não andar direita. Havia um barulho estranho. Coisa esquisita. Olhámos um para o outro e para o relógio. #@%@&*$! O ponteiro dos minutos não parava e aproximava-se perigosamente das zero horas. Deixámos o carro arrastar-se mais um pouco. Até que parámos para ver o que se passava. Estávamos mesmo perto de um posto de controlo, com uma patrulha armada. #@%@&*$! De garganta apertada saímos e começámos a andar à volta do carro. Um dos soldados da patrulha fez o mesmo, com a sua kalaschnikov, acompanhando-nos com um ligeiro sorriso. “Parece que o pneu está furado, camaradas, disse o soldado”. Educadamente concordámos. O meu cérebro começou a trabalhar à velocidade da luz. “Como raio se muda o #@%@&*$ palerma do pneu? Sei que temos de usar o macaco e desatarraxar porcas… e que mais? #@%@&*$!” Na minha mente havia um vazio enorme. Desejava que o meu marido soubesse isso tudo, pois eu só tinha vontade de correr dali para fora. Quando pensei que a patrulha talvez nos fosse ajudar, ouvi o soldado dizer com voz risonha: Camaradas, sabem que horas são? É quase meia noite! E sentou-se junto aos colegas, sorrindo e olhando para o relógio… Tic tac tic tac, ouvia na minha cabeça a latejar. Olhámos um para o outro, percebendo rapidamente a mensagem que nos foi passada. #@%@&*$! E mais #@%@&*$! Abrimos o porta bagagens, tirámos o macaco e o pneu sobressalente, desatarraxámos em parte as porcas, usámos o macaco, trocámos a porcaria do pneu, atarraxámos tudo outra vez, atirámos as coisas para dentro do carro e partimos à louca para nossa casa faltando ainda 1 ou 2 minutos para a meia noite.

Estacionámos, entrámos no prédio onde morávamos a correr à louca e com o coração quase a sair pela boca. #@%@&*$! Conseguimos!!!!

É uma história que nunca vou esquecer. Primeiro porque percebi que, juntos, apesar do risco conseguimos ultrapassar o medo. Segundo porque nunca vi alguém a mudar um pneu em tão pouco tempo. Tivemos sorte em que nenhuma empresa da fórmula 1 tivesse assistido a semelhante performance. Teríamos sido contratados e agora era uma estafa a fazer circuitos de fórmula 1, na box, a mudar pneus… Em terceiro lugar porque percebi que o fator sorte é importante, mas que não se pode sempre contar com ele. Conhecer os contextos, parar, pensar e planificar são requisitos fundamentais na tomada de decisões. Em quarto lugar, confirmei a minha teoria de que dizer (ou pensar) palavrões não resolve nada, mas alivia imenso.

Raios me partam se não foi o pneu mais bem mudado no universo!!! #@%@&*$!!!!!!