O poder da escolha.

O Marítimo não está bem. Não tem estado bem já há algum tempo. Não vou aqui bater outra vez naquilo que hoje está na boca de todos: os fracos resultados desportivos; o divórcio com a massa adepta; a ausência de grandes referências no clube, quer nos planteis, quer na estrutura, que defendam e imponham a mística e a rica história do clube; e uma panóplia de problemas vários, alguns de índole judicial. Ao invés de apontar dedos e rebobinar a cartilha vezes sem conta, hoje permitam-me olhar para o futuro imediato, e naquilo que, na minha opinião (valha o que valer), deverá ser o rumo a seguir o mais rapidamente possível.

Os clubes hoje são essencialmente empresas. E como tal a sua exploração deverá decorrer numa perspetiva de gestão com vista à obtenção de receita que permita responder às suas despesas e garantir ao clube a capacidade de dotar-se de todos os mecanismos que o permitam crescer. Mas ao contrário de uma empresa ‘normal’, um clube desportivo, especialmente os dedicados ao futebol, são aquilo que eu chamo ‘empresas com coração’. Isto porque, sem entrar em grandes dissertações, o principal ativo dos clubes são os seus adeptos. E são estes os seus principais clientes, sejam sócios ou simplesmente simpatizantes. E quanto mais adeptos, mais receita. Quanto mais receita (e mais adeptos) mais o clube cresce e mais a empresa prospera. O problema dos adeptos é que estes vivem com o coração na boca e só esporadicamente com a razão. Do êxtase à fúria vai à velocidade de uma vitória ou de uma derrota. Num clube sem conquistas, o adepto chateia-se, reclama e muitas vezes afasta-se. Consequentemente não consume os produtos do clube. Numa agremiação vencedora o adepto rejubila, floresce e consume, e ainda arrasta os seus para este movimento, promovendo consequentemente o desenvolvimento do clube. Não é por acaso que os clubes com mais adeptos são sempre os clubes associados a conquistas, grandes vitórias e grandes feitos.

Se fosse fácil, todos lá chegavam. Mas não é isso o que acontece. Há diversas condicionantes que não controlamos: a geografia e a densidade populacional, a economia e a dimensão do mercado onde o clube se insere; a concorrência e os condicionalismos externos, alguns de índole duvidosa. E depois há os nossos problemas, que se resumem essencialmente a três tipos: financeiros, organizativos e de comunicação e, claro, os desportivos, consubstanciados na falta de resultados.

Sendo certo que não se fazem omeletas sem ovos e também não se (re)organiza um clube de uma ponta à outra sem dinheiro, há, a meu ver, passos essenciais para entrar num possível caminho de sucesso:

1. Definir objetivos a curto, médio e longo prazo: onde se pretende que esteja o clube daqui a 5, 10 e 20 anos? Que meios são necessários; qual a organização necessária; que tipo de profissionais necessitamos de dotar o clube para atingir esses fins. Parece-me que o primeiro passo, antes de qualquer outra questão, é saber o que se pretende para este Marítimo. Onde se quer colocá-lo? Onde é possível chegar? Recuperar o Marítimo europeu, por exemplo, deveria ser desde logo um aspeto principal.

2. Unir adeptos: o futebol move multidões e a substância dos clubes são os adeptos. Estes são essenciais para que um clube possa ultrapassar quaisquer dificuldades, tensões e focos de instabilidade que perturbam o funcionamento do clube. É assim necessário unir os adeptos em torno do Marítimo e dos tais objetivos que se pretenda atingir. Apelando à mística verde-rubra, as redes sociais podem ser um meio inicial para espalhar a mensagem de que uma mudança está prestes a acontecer, mas a médio/longo prazo é preciso utilizar estratégias de marketing e publicidade centradas no adepto, previamente definidas e preparadas para levar pessoas ao estádio e juntar os adeptos em redor da equipa.

3. Criar sinergias com outras entidades e marcar uma identidade social do clube: numa primeira fase regional, com empresas, associações, escolas, instituições públicas, marcando o Marítimo como uma ‘marca’ de confiança e consciente (por exemplo é justo pensar que papel social poderia o clube representar nestes tempos complexos de pandemia e crise, nomeadamente em ações de cariz social e de apoio à comunidade?). Estabelecido regionalmente, avançar para as comunidades madeirenses (e portuguesas doutras origens, porque não?) e (re)estabelecer o Marítimo como símbolo da Madeira e de Portugal. Posteriormente apontar a alvos nacionais e internacionais, conforme a capacidade de penetração do Marítimo em outros mercados.

4. Dotar o clube de profissionais reconhecidos e capazes: quer na gestão comercial e financeira do clube, mormente estabelecendo boas relações com a banca e/ou outras entidades estratégicas, e que permitam criar uma boa reputação no mercado; quer na gestão técnico/desportiva do clube, selecionando criteriosamente o(s) diretor(es) das áreas da prática desportiva do clube (profissional e federada; amadora, etc), assim como os responsáveis técnicos (treinadores, responsáveis pelas camadas jovens, delegados, etc); aposta na formação da prata da casa e num scouting rigoroso para a aquisição de atletas. Melhores profissionais, melhores jogadores, mais hipóteses de negociar ativos e capitalizar o clube.

Todos queremos o melhor para o nosso Marítimo. É nos momentos de dificuldade que o clube mais precisa de nós. Neste momento é essencial garantir que o Marítimo permanece na liga principal, por todas as razões e mais algumas. Logo a seguir começar a preparar o futuro. Que estará nas canetas de todos os Maritimistas quando forem chamados a exercer o seu direito de voto.