O homem que via palavras (fim)

“As minhas lentes são as palavras. Há quem fotografe pessoas, paisagens, eu vejo-lhes as palavras”.

Às vezes, destruir é dar vida. O homem que via palavras gostava de explicar assim a sua missão. Sabe que um dia começou a ver o que outros não viam e entendeu que poderia levá-los a esses lugares do qual não regressamos os mesmos. Estimular as suas palavras interiores – os pensamentos – as únicas que verdadeiramente nos acompanham toda a vida.

“Carrego uma tristeza dentro de mim que fertiliza as palavras. É um preço muito alto a pagar, que me devora por dentro. Não sou irmão das palavras da alegria, devem ser bem mais bonitas”, confessava.

Quem o via, sem saber, idealizava esses momentos negros, como se fossem o preço a pagar por ver mais fundo. Mas se ele lhes cobrava as palavras nascidas da escuridão, achavam-nas demasiado caras. Um luxo, pagar por palavras novas, onde já se viu?

O homem que via palavras também tinha pena dessas pessoas. Tudo era repetição. Numa vida escrutinada ao segundo não há espaço para a surpresa. “Talvez seja essa a couraça de que os outros se revestem para evitar a tristeza. Também é um preço muito alto a pagar. Demasiado alto”.

Trube, magpa, giambó. “Precisamos de palavras que signifiquem apenas a sua experiência, não um conceito que tenhamos de visualizar. Palavras que falem de uma relação única, em que as pessoas não precisem de explicar nada mais, depois de as pronunciar. Palavras que bastem. Que desatem nós dentro do peito”.

Ele sabia que todos carregavam a sua própria tristeza, mas muitos preferiam fingir que não a viam. Às vezes destruir é dar vida, insistia. Porque também é preciso deixar de repetir, apenas, de fazer o que se espera, e tomar a decisão de partir, de partir-se, para enfrentar os medos e as ausências, os vazios e as máscaras que soterram as sementes de futuro, em vez de as fazer germinar. “Não há humanidade sem palavras. Sobretudo, não há humanidade sem palavras novas”, dizia sempre.

O homem que via palavras morreu de fome, dizem. “Pois claro, como uma ocupação tão estranha…”

Mas estão errados. Morreu de inconsequência. Triste de desesperança. Corroído pelas palavras que não conseguiu gerar e pelas que o mundo não quis receber.

Morreu mártir: as nossas, as novas palavras não fermentam nos silêncios alheios, para que as bebamos como um bom vinho; apodrecem. Ele teve a coragem de não as sepultar nos outros.