Olhar por todos

A crise pandémica coloca desafios a todos em geral e, em particular à população idosa. É esta que é devastada pelos os efeitos deste vírus.

O maior número de mortes observa-se nas faixas etárias mais altas. Para além dos óbitos registados, os problemas de saúde decorrentes do envelhecimento agravaram-se, quer seja pelo medo de se deslocar a um serviço de saúde em tempo de pandemia, quer seja pelo isolamento a que estão sujeitos no seu domicílio ou nas estruturas residenciais para idosos. A Madeira tem sido um exemplo na salvaguarda, na proteção e vacinação desta faixa da população.

Mas há outras franjas da população que sofrem os efeitos colaterais desta pandemia, designadamente as crianças, os adolescentes e os jovens adultos.

Confinados no domicílio, com ensino à distância, reféns das redes sociais e privados do convívio social, as crianças e os jovens apresentam, segundo vários estudos, consequências nefastas na sua saúde mental.

Os resultados do estudo recente do Centro de Investigação do Bem-estar Psicológico, Familiar e Social, da Universidade Católica, sobre o impacto psicológico do confinamento nestas faixas etárias, demonstram que 34,1% das crianças e adolescentes estão mais “zangados” neste segundo confinamento, sendo que 53% referem a redução dos contactos socais como um dos fatores com maior impacto, e 24,6% das crianças e adolescentes perguntam mais vezes sobre a morte.

Este é apenas um dos muitos estudos, que apontam todos no mesmo sentido: a pandemia acarreta riscos evidentes para a saúde mental dos mais jovens. A juventude é o principal grupo de risco para o desenvolvimento de problemas de saúde psicológica, não se conhecendo ainda a dimensão e os seus efeitos. Também o professor britânico de sociologia da saúde, Chris Bonell, faz um alerta e refere: “estas adversidades vão manifestar-se ao longo da vida dos jovens, cicatrizes mentais, económicas e sociais destas não desaparecem”.

A prática de atividades desportivas é praticamente nula. Os estágios curriculares e profissionais encontram-se em suspenso. Os programas de Erasmus retrocederam. Todos estes fatores contribuem para agravar o problema sobre o qual nos debruçamos.

Acresce-se a tudo isto o facto de termos pais angustiados sem saber como entreter os mais novos, limitar os naturais anseios dos adolescentes, responsabilizar os jovens e sem conseguir conciliar o teletrabalho e o ensino à distância.

É uma realidade difícil, aquela que os mais novos enfrentam. A Saúde mental é um assunto que não podemos escamotear. Somos seres sociáveis, gregários, vivemos em comunidade, e quando tudo é ao domicílio, ficamos vulneráveis.

Apesar de tudo, há que ter esperança. Tal como nas crises passadas, os mais jovens são aqueles que têm maior adaptabilidade, maior criatividade, maior resiliência para encontrar novas soluções. Serão eles o motor de um novo tempo, de um novo paradigma.

Importa intensificar os esforços para responder e encontrar as políticas públicas capazes de colocar em prática uma recuperação inclusiva, aproveitando os recursos e as atuais circunstâncias para dirigir respostas e apoios aos jovens, sabendo de antemão que as novas gerações estão mais aptas e preparadas para os novos desígnios.