Uma escola primária nos anos 80

Há muitos anos, numa galáxia distante, três ou quatro dúzias de terráqueos pululavam num edifício escolar construído através do “plano centenário” composto de duas salas de aulas e duas abas frias e húmidas às quais denominávamos de “pátios”.

Nas traseiras duas casas de banho por sala de aula, uma fechada porque reservada aos professores e outra aberta ao público escolar. Resta referir que estas se limitavam a um buraco de loiça no chão com dois suportes, do mesmo material, de cada lado onde pousávamos os nossos pés descalços, calçados de solas secas ou pior, de botas ortopédicas vergando o esqueleto à posição mais confortável possível para o serviço, tentando acertar no alvo, mas sobretudo oferecendo uma oração aos anjos para não derrapar para o centro, sugados qual buraco negro para as trevas imundas, o que não era assim tão raro.

À frente um jeitoso poio de erva que crescia frondosa no verão e era diariamente aparada pelos jardineiros de serviço, nos intervalos através dum jogo da “matança”, de futebol, de “apanhada” ou “punhada” como dizíamos ou simplesmente dum rolar de corpos declive abaixo ou saltar nas poças formadas com a água da chuva. Lembro-me duma atividade que consistiu em descrever a nossa escola trocando com outra, pelo correio. Não recordo que estabelecimento nos calhou no intercâmbio, mas devia ser de cidade, com um campo com linhas desenhadas e refeitório e tudo, porque a professora, tentando não nos reduzir à insignificância das nossas instalações, disse para enfatizarmos o facto de termos “um campo relvado”. Lá ficámos todos orgulhosos do nosso “campo relvado” que, na realidade, não passava dum baldio em declive com erva selvagem e rosinhas de espinhos afiados na vedação. Mas, era o NOSSO “campo relvado” que partilhávamos uns com os outros em perfeita harmonia com as carraças que lá habitavam.

No interior os estores de pauzinhos de madeira enrolavam qual mar na areia ao ponto de já não insistirmos em abri-los ou fechá-los, como estavam, tinham de ficar. O quadro era de ardósia preta e o giz, molhado da humidade no inverno, teimava em escrever todos os dias o sítio onde estávamos e a data, não fossemos esquecer e pensar que estávamos, outrossim, num estabelecimento com um campo com linhas e refeitório e materiais de qualidade.

As secretárias duplas em platex serviam a imaginação plástica de quem se sentava, porque já se desfaziam ao mero toque e as cadeiras, escolhidas a dedo, ou a traseiro, porque bem podiam se partir entalando o utente perante a gargalhada em cânone musical da turma.

Cada sala: duas classes, uma professora, dezenas de piolhos.

Os intervalos eram, naturalmente, o momento mais desejado, chamado de “o recreio”, assemelhava-se a um filme independente de madrugada de sábado para domingo, mas o mais desejado era o momento pré recreio em que a professora, visto que não existiam Contínuos (assim chamados à época) ou qualquer outro tipo de Colaborador, selecionava, qual Fernando Santos, dois alunos para a tarefa de cortar e barrar manteiga no pão. Eis que chegava o momento justiceiro do dia, visto que quem aceitava a tarefa barrava mais ou menos manteiga conforme a cara do freguês que o ia receber. A revolta do leite e seus derivados, revisitada. Não confundam, não havia cá leite, nem achocolatado, só papo-seco com manteiga e… bico.

Assim foi a minha escola primária e muitas outras por essa ilha fora que formaram muita gente em condições difíceis, mas sempre procurando o melhor que nos poderia oferecer, nem que um poio em declive, baldio, a que chamávamos com um brilho nos olhos de “campo relvado”.