«Em cada ti de mim [sem ponto final]»

Neste mês mais curto do ano – em albanês, fevereiro diz-se Shkurt, que significa curto, mas onde só não cabe o que não tivermos a sapiência de lá colocar –, ouço na Antena 2, pela primeira vez, o poema de José Craveirinha, «As saborosas tangerinas de Inhambane».

Fez-me lembrar aquela viagem que nos levou num carro desportivo amarelo de Joanesburgo até Inhambane (Moçambique), passando pelo reino onde se aprende que não é no asfalto que nascem estórias, a Suazilândia (ou eSwatini). Não queríamos um carro desportivo nem amarelo, mas precisávamos de um onde coubessem os nossos pertences e, ao chegar ao aeroporto Olivier Reginald Tambo – que homenageia o antigo Presidente do ANC, cuja acção e pensamento muito influenciaram o seu companheiro Mandela –, foi o que nos propuseram. De Inhambane, lembrava-me do lânguido pôr-do-sol, dos destroços do barco que habitavam a baía, dos jogos de futebol, da escola hoteleira onde acordámos para um pequeno almoço com Nesquik e para olhos curiosos. Também me recordava das meninas a vender amendoim torrado aos transeuntes, transportado-o em alguidares achatados na cabeça, medindo as doses numa canecazinha de folha –  a olho, ou seria com o coração? –, da praia do Tofo e dos turistas que vinham ver as raias – ou as mantas como também as chamamos na Madeira –, anjos que esvoaçam na água. Em Inhambane, também encontrámos o capitão Pedro e o seu ajudante de bordo que nos levaram numa dhow, uma embarcação de vela triangular de tradição árabe, a uma ilha que era logo ali, mas cuja cortesia não lhes permitiu dizer que só lá chegaríamos se os bons ventos e as correntes assim deixassem, e se fôssemos lestos o suficiente para retirar a água que lá entrava. Lembrava-me de tudo isto menos das tangerinas. Fui procurá-las e encontrei-as em diferentes lugares: num trabalho escolar fazendo a exegése do poema, numa fotografia do manuscrito de Craveirinha – que pena que hoje em dia a maioria dos escritos brotem de teclados –, e no blogue «Diário de um sociólogo», de Carlos Serra, cujo aforismo pessoal era «Pessoas sem sonhos não fazem história: sofrem-na. Pessoas sem sonhos não vão para a frente, mas para trás […]». Urge singrar e saber mais sobre Carlos Serra e perscruto a sua página no Facebook.

 

A última entrada datava do início do ano passado. Enlaçado pela curiosidade, sigo para a página da sua filha Mabel Serra, psicóloga no Hospital Central de Maputo, que recentemente escreveu uma carta aberta a todos os profissionais de saúde, onde registava e resistia ao «adoecimento daqueles que cuidam». Numa entrada de 25 de Março de 2020, descubro uma foto de perfil temporária, onde, a bordo de um avião, Mabel sorria e o seu pai levantava o polegar, sinal que os imperadores romanos faziam para salvar a vida de quem se encontrava na arena mas que, desta vez, me despertava para a memória presente do seu perecimento. Assim, em poucos minutos, e por força das tangerinas de Inhambane, das quais não me lembrava, passei da euforia de ter feito – mais do que encontrado – um amigo à melancolia de já não poder falar com ele. Contudo, ele só agora começou a falar-me, como no seu «Búzio de ti»: «Os búzios são os ouvidos/que o céu me deu/para te trazer para mim/quando a terra me dá a distância/Por isso inventei o mar/que todos os dias me faz presente/em cada búzio de ti/em cada ti de mim [sem ponto final]». Fala-me também através da filha e do filho, homónimo, pois «de boa árvore, boa fruta». Ironicamente, ou não, o programa de rádio intitula-se «A Vida Breve».