Será que os livros vão acabar?

Os jovens e a nossa população pouco lê, os hábitos de leitura são cada vez mais raros, os estudantes quando nos falam de livros referem-se a estes como algo que desconhecem, que a própria família ignora e dizem: eu bem tento ler e às vezes até experimento, mas fico com sono ou com os olhos a arder, depois quando viro a página já não me lembro do que li na página anterior. Por vezes tenho alguns diálogos com estes jovens com quem me vou cruzando e vou assim sabendo como vai este mundo. Digo-lhes que as dificuldades são resultado da falta de ginástica de leitura. Os olhos não estão treinados e a leitura afecta-os irremediavelmente, só vêem coisas e letras fragmentariamente nos computadores ou telemóveis, mas não lêem, vêem coisas e assim surge a segunda dificuldade – têm sono ou já não lembram da página que leram. 

Ler é entender o significado das palavras e o conjunto das palavras é entender a expressão das ideias que igualmente devem ser compreendidas. Desta forma, relacionaremos factos e ideias e quando isso acontece, também acontece a maravilha da leitura para nosso prazer, para nosso conhecimento do mundo, da ciência, da vida, do amor, da beleza, da estética, dos valores materiais e morais. Digo-lhes sempre que cada livro que se lê corresponde a um ganho intelectual sem dimensão. O livro é um objecto belo, o papel tem um toque agradável tal como o toque da pele de um corpo, o livro tem ainda o perfume da tinta que o imprimiu.

Era tão bom, era fundamental que o Ministério da Educação compreendesse que, sem rejeição do digital, é necessário harmonizar as apetências pelas leituras. Há que aproveitar esta pandemia para promover a leitura em casa e em família, mas ao contrário proibiram-se surrealisticamente as vendas dos livros, até nos supermercados. O online serve, nestas condições, para estabelecer comunicação entre a escola e o aluno e através dessa rede planificar e propor diversas leituras.

- Um bom romance, motivar para essa leitura e descobrir uma bela história, dando pistas para que se percorra o livro, o seu autor e o seu contexto.

- Um bom álbum de arte, motivar para leitura da obra ou obras de diversos pintores e escultores, observando a beleza das mesmas e compreender os seus conteúdos e funções. 

- Uma boa biografia de um músico ou de um cientista, tudo isto antecedido de um discurso do professor que motive o jovem, que lhe dê o empurrão necessário para que tudo comece em andamento.

Entregaram-se, e bem, milhares de computadores aos estudantes; seria igualmente necessário entregar-se às bibliotecas escolares milhares de livros. Um ensino exclusivamente online brutalizará mais a ignorância já existente, os alunos ficarão reféns das ditaduras da informática, da Wikipedia ou de outras plataformas.

É preciso ler Gil Vicente e perceber o teatro no seu tempo ou ler Santareno e Luíz Francisco Rebelo e entender o teatro hoje.

É preciso saber como era o Renascimento e perceber a beleza da poesia de Camões, das esculturas e pinturas de Miguel Ângelo.

É preciso saber para gostar!

E este momento pode ajudar a reflectir e a encontrar estratégias capazes de “ocupar” o confinamento obrigatório. Não devemos permitir que o horário lectivo seja reproduzido à frente de um computador, usemos o computador para indicar aos jovens um tempo de repouso com as leituras sugeridas.

Ler é preciso!