Livros fora da emergência

No Ocidente, a média de 3 horas representa o tempo que uma criança de 2 anos costuma passar a olhar para um qualquer ecrã luminoso, um valor que atinge as 5 horas quando estamos na faixa etária entre os 8 e os 12 anos, chegando, pasmem, a quase 7 horas por dia nos jovens de 18 anos. Esses dados, originais da obra LA FABRIQUE DU CRÉTIN DIGITAL, da autoria do neurologista Michel Desmurget e citados recentemente pelo editor português Rui Couceiro, ilustram a geração de nativos digitais que crescem na actualidade e que “vão ser as primeiras nas décadas recentes a ter valores de QI inferiores ao dos pais”.

Na minha declaração prévia de interesses devo dizer que, além de licenciado em Engenharia Informática, sou um orgulhoso leitor de livros impressos em papel, por prazer, e que lidero uma estrutura detentora de duas editoras. Sou, portanto, completamente parcial na defesa da leitura, dos livros e dos benefícios que estes trazem no combate à ignorância e na edificação de uma sociedade mais plural e humana.

Nos últimos anos, o mercado do livro em Portugal estava a crescer. Segundo os dados da GfK Portugal, o valor global do negócio livreiro rondou os 150 milhões de euros em 2019, atingindo quase os 12 milhões de unidades vendidas, dados que excluem os manuais escolares. Enquanto a nossa média, se aplicada de forma bruta, situaria-nos na venda de um livro por cada português, países como o Reino Unido, com 191 milhões de unidades vendidas em 2018, têm quase quatro vezes mais vendas por habitante, de acordo com dados da BBC.

A Federação Europeia de Editores indicava que, em 2017, o mercado livreiro valia 22,2 mil milhões de euros no Velho Continente. Em 2016, estimou-se que foram lançados 16,5 mil títulos em Portugal, mas com poucos a chegarem, a pelo menos, a mil pontos de venda nacionais, sendo que a maioria desses locais são supermercados. As pequenas livrarias e alfarrabistas estão a encolher, num movimento de contração acentuado pela crise que vivemos.

Vendemos poucos livros, cada vez menos em livrarias, que são os locais por excelência para esse comércio. A Rede de Livrarias Independentes, criada em Abril de 2020, pretendeu reduzir os efeitos da crise no mercado livreiro através da criação de uma plataforma de livrarias de todo o território sem ligação a redes dos grandes grupos editoriais e livreiros. A tendência nacional de polarização de vendas através de grandes escritores é o que também vemos em outros países.

Chegamos a 2021 com números alarmantes da pandemia, liderando os piores indicadores mundiais. Nesse contexto delicado, vivemos um Estado de Emergência, decretado como única alternativa para mitigação da crise de saúde. A discussão é fértil, e ainda bem, e envolve a defesa da venda dos livros nas grandes superfícies e ao postigo nas livrarias. O ministério que deveria tutelar a cultura remete para a pasta da economia a explicação para exclusão dos livros enquanto bens essenciais que deveriam ser vendidos nos espaços comerciais que continuam abertos, numa posição defendida pela Associação que representa o sector em Portugal, a APEL. No final de Janeiro, na saída de um encontro com Marcelo Rebelo de Sousa, dois parlamentares indicaram que o Presidente estaria interessado em ver o fim da disposição que interditava a abertura das livrarias e mesmo a venda de obras nos locais onde está, neste momento, proibida em hipermercados ou postos de correio.

A cultura, nas suas variadas vertentes, não tem sido poupada, como tantos outros setores, da crise. Sabemos que, quando se iniciar a desejada recuperação nacional, ela representará uma área cuja normalização será ainda mais lenta. Perdemos todos com isso. Em 2018, a Deloitte revelou que mais de metade dos portugueses tinham os livros como a prenda mais provável do seu Natal. Em 2021, no Natal, no Verão, nos aniversários e demais datas especiais, espero que o livro seja uma das prendas eleitas por vós. Acima de tudo, que possamos visitar as livrarias, partilhar as leituras e as vivências sociais desse hábito. Mais do que celebrar os livros, temos que salvá-los a bem do nosso futuro.