O que vai restar depois da pandemia?

Chegados a uma nova vaga da pandemia da covid-19, precisamente um ano depois da primeira morte em Wuhan, já podemos olhar para trás e perceber o quanto este vírus nos roubou. A normalidade dos dias, o convívio social, o convívio familiar, uma crise social e económica sem precedentes e uma terrível angústia e incerteza sobre o que restará quando conseguirmos voltar à normalidade possível depois do tanto que se está a perder.

Irrecuperáveis serão as vidas que se têm perdido e as marcas profundas nas famílias que viram partir os seus, mas existem outras incertezas que nos assaltam. Desde logo, a crise económica na sua vertente social e humana. Será possível às famílias que se viram, de um momento para outro, privadas de tudo o que tinham conquistado, voltar a conquistar o que perderam?

Tudo, para já, é uma incógnita, rodeada pela incerteza de um horizonte temporal para o fim desta pandemia.

Do ponto de vista humano, as perdas são tremendas. Não apenas aquelas que antes referi, mas também uma parte da nossa humanidade está em risco de ser alterada, exatamente aquela parte que nos distingue, que nos individualiza mas também nos torna universais, que nos constrói, mas que também constrói a nossa profunda humanidade.

Foco-me apenas em três vetores que esta pandemia abalou profundamente: o contacto com o outro e a aprendizagem emocional e cultural que lhe era inerente; o fascínio da viagem que nos fazia cidadãos das nossas cidades, mas também cidadãos do mundo; a cultura que nos mantinha ligados às nossas raízes, mas que também era aglutinadora dessa universalidade que nos enriquece a todos.

Quanto a mim, estas três vertentes estão a caminho de sofrer danos que podem ser irreparáveis. Não apenas porque a capacidade de resistência pode não ser suficiente para uma crise alargada no tempo, mas também porque há todo um retomar de confiança que não será fácil de recuperar. E isto é verdade para voltarmos a estar com os outros com alguma normalidade, como é verdade para viajar ou para assistir a um evento cultural.

Claro que temos vindo a falar que é preciso nos reinventarmos, e em todos estas vertentes temos realmente tentado essa reinvenção, mas há algo mais profundo que se perde quando estarmos a falar de comportamentos e atividades que envolviam esse contacto humano, essa transferência de emoções e saberes, essa comunhão com o mundo e com o que nele constrói aquilo que nos faz enquanto humanidade.

Para além da crise sanitária, há uma crise humana que foi direta ao coração de atividades que nos eram essenciais, não apenas do ponto de vista de uma sustentabilidade económica, mas também do ponto de vista de uma sustentabilidade humana, cultural e social. 

As relações interpessoais, o turismo e a cultura sofreram logo o primeiro embate de uma crise pandémica com os seus desafios tão novos quanto difíceis.

Espero, sinceramente, que possamos recuperar porque sem a dimensão humana de tudo aquilo que agora parece suspenso, não será possível um regresso ao nosso sentido enquanto comunidade.

Esta pandemia já nos tirou tanto, agora é preciso que tudo façamos para que a recuperação de tudo o que foi perdido seja o mais célere possível. Todos estamos a lidar com algo novo, daí que todos temos de fazer a nossa parte para vencer este inimigo. Só depois poderemos ver o que restará, esperando que reste o essencial do tanto que conquistamos e somos.