A “cultura do cuidado”… uma resposta eficaz!

No início deste ano de 2021 o meu coração inclina o seu olhar para as mulheres vítimas de violência doméstica, para as que continuam a sofrer, para as que sucumbiram às mãos de um agressor, para os rostos das que me apresentaram um pedido de auxílio e a quem não consegui acudir...! Carrego, ainda, no meu coração os seus filhos, crianças, jovens que amam as suas mães e que, por vezes, se sentem culpados por amarem um pai que maltrata ou maltratou a sua mãe! Os filhos que, num momento em que a tragédia lhes bateu à porta, não pretendem que a sociedade olhe para eles com comiseração e que tanto gostariam que os meios de comunicação social e as redes sociais não difundissem imagens dos seus pais…, todos lhes devemos essa reserva por um bem maior!

Infelizmente, algumas destas crianças e jovens já não têm a possibilidade de receber o colo, o abraço, o aconchego das suas queridas mães e precisam de auxílio para continuar a viver de uma forma sã, equilibrada e digna!

Dizem que o nosso país é um bom exemplo no combate à violência doméstica e que tal é reconhecido pela Comissão Europeia. Também referem que no ano de 2020 em Portugal os agressores ficaram mais constrangidos e daí que se tivessem registado menos queixas e menos mortes por violência doméstica.

Será possível que não conseguimos efetuar uma leitura menos autista desta realidade? Será que não se alcança que no ano de 2020 muitas destas mulheres, e fruto do isolamento imposto pelo confinamento, viveram, diariamente, com o agressor e que por isso a quase tudo se subjugaram para sobreviver, bem como para salvaguardar a estabilidade emocional dos seus filhos?

Façamos uma análise politicamente séria dos elementos disponíveis, conversemos com as vítimas para, assim, alcançar a melhor solução. Salvaguardemos as nossas crianças, estes nossos jovens (vítimas) que constituem para nós uma luz de esperança, um potencial para fazer o bem e o belo, num mundo que num futuro próximo tanto necessita deles como adultos responsáveis.

Necessitamos de concretizar a “cultura do cuidado”, que anda de mãos dadas com a atenção que é devida aos sinais que nos vão sendo trazidos pelas vítimas de violência doméstica, e que impele a sociedade a adotar medidas de efetiva prevenção, proteção e reparação. Daí que os números vertidos nas estatísticas, e que constituem um ponto de partida, devem ser analisados com a prudente contextualização para que se infira o que espelha a realidade e se atue combatendo o bom combate e não os moinhos de vento

Não nos escudemos na espera de uma decisão judicial para atuar, para encontrar uma resposta que salvaguarde aquelas mães, aquelas crianças, aqueles jovens. A Justiça requer algum tempo, razoável, para a prolação de uma decisão e a proteção em contexto digno deve ser feita “Agora”, pois amanhã poderá ser tarde… e quantas vezes já foi tarde!

Todos somos responsáveis uns pelos outros! Logo, quando a sociedade falha na proteção aos mais vulneráveis todos falhamos!

Viver num mundo que cuida do seu próximo, que tem a pessoa humana como um fim e que não a mede nem pela utilidade, nem pela cor, nem pelo sexo, nem pela orientação sexual, já constitui um modo de prevenir os atos de violência doméstica.

“Que nunca nos inclinemos perante o que é cómodo (…) que os nossos olhos encarem cada tempo como uma nova oportunidade” para defender, de um modo articulado e eficaz, as vítimas de violência doméstica para que cada uma delas creia que é possível, apesar do medo e da vergonha que sentem, vencer a adversidade!