Um ano horrível... e um começo de novo ano ameaçador

Ao longo de 2020 fomos perdendo várias individualidades entre elas distintas figuras da cultura nacional em diferentes domínios.

Algumas destas personalidades deram-me a honra de serem minhas amigas e de com elas ter convivido e enriquecido a minha vida pessoal. Entre elas os artistas plásticos Nikias Skapinakis, Cruzeiro Seixas e o escultor João Cutileiro; o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles; a médica e cientista Maria de Sousa; o jornalista madeirense Vicente Jorge Silva; a escritora Maria Helena Marques e o Professor e pensador Eduardo Lourenço.

A morte do genial Eduardo Lourenço, homem que nos deixa um imenso legado sobre a cultura e o Portugal contemporâneo e que pensou tal como António Vieira, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Garrett, Pessoa, António Sérgio ou agostinho da Silva, equivale à perda de uma verdadeira biblioteca viva. Como ensaísta Eduardo Lourenço ombreou com Óscar Lopes, António José Saraiva, David Mourão-Ferreira, Ramos Rosa, Paula Mourão; Álvaro Manuel Machado, Gastão da Cruz, Fátima Freitas Morna, Teresa Rita Lopes e também Eugénio Lisboa, todos eles e Lourenço deixam-nos para reflexão grandes ensaios sobre as obras e vidas dos nossos mais notáveis escritores e poetas.

Adeus amigo Eduardo Lourenço.

No respeitante à pintura Cruzeiro Seixas, o principal pintor surrealista português, foi também o primeiro curador da galeria de S. Mamede dando assim início ao surgimento das melhores galerias que nasceram em Lisboa. Impulsionador do movimento surrealista português juntamente com Cesariny, tendo também ele sido um significativo poetado surrealismo.

Adeus Cruzeiro Seixas.

Nikias Skapinakis, um pintor extraordinariamente marcante da pintura contemporânea, notabilizou-se pelo seu sentido cromático, pela sua versatilidade plástica onde se viam as suas múltiplas abordagens das linguagens estéticas. Foi um militante anti-fascista, militante comunista e um pensador da liberdade.

Adeus Nikias.

O meu particular amigo Gonçalo Ribeiro Telles, com quem trabalhei no Ministério da Educação durante alguns anos, foi o pai da arquitectura paisagística em Portugal juntamente com Caldeira Cabral. Com Gonçalo Ribeiro Telles aprendi os erros da cidade de Lisboa, o desrespeito urbanístico e a desumanização da mesma. Ribeiro Telles mostrava sempre um conhecimento tão profundo de tudo sobre o que falava, foi ecologista antes dos ecologistas, católico, fundador do partido monárquico e com os seus saberes marcou variadíssimas gerações.
Adeus meu querido Professor Gonçalo Ribeiro Telles.

Vicente Jorge Silva, conheci-o em 1969 quando cheguei à Madeira, ficámos amigos e logo no Comércio do Funchal publicou um artigo meu, melhor dizendo meu e dele, sobre pedagogia e sobre a deficiente educação e ensino que existia. Acompanhei com entusiasmo a sua saída do Funchal para o jornal Expresso onde de imediato se notabilizou como o melhor da redacção. Seguiu-se o jornal Público do qual foi director e fundador. Era um cinéfilo e sobre cinema passámos horas a discutir as diversas estéticas especialmente as de Godard que eu havia conhecido em França. O Vicente era o grande jornalista do século XX, o Vicente é madeirense e todos temos o dever de não o esquecer.
Adeus camarada Vicente Jorge Silva.

Maria de Sousa, Médica e Bióloga, Cientista e Professora Catedrática no Porto, em Londres e Nova Iorque. Uma extraordinária amiga, tal como eu filha de um marinheiro e provámos juntos as águas do Tejo junto à sua barra. Pertencíamos ao grupo de amigos mais chegados de David Mourão-Ferreira. A Maria era linda, os seus olhos doces eram sublinhados por um dos sorrisos mais ternos que conheci na vida. Esta enorme Cientista de craveira internacional, quando se deu conta de que que estava infectada com o Covid19 e sabendo que não resistiria, escreveu aos amigos e pediu aos amigos que divulgassem que “esperava perdurar por via dos que ficaram vivos” e acrescentou que os jovens serão capazes de mudar este mundo para melhor. Já não era cronologicamente jovem, mas acreditava que um mundo melhor chegaria. Deixou-nos ainda, na sua extensa carta, imensas considerações sobre a ciência, a vida e a morte. A Maria morreu com a convicção de que a ciência irá continuar a avançar e a resolver muitos dos nossos males.
Adeus Maria de Sousa.

2021 entrou ameaçador e logo, logo nos primeiros dias levou o homem da cidade, o cantor de Lisboa, a voz dos poetas revolucionários de século XX, a voz única do Carlos do Carmo, a voz dos amantes da liberdade, levou o meu amigo fadista Carlos do Carmo com quem partilhei momentos inesquecíveis na companhia de Ary dos Santos e do imenso fotógrafo Augusto Cabrita no meu atelier da Caparica.
Adeus “Menina e Moça”, adeus Carlos do Carmo.

E hoje mesmo, quando estava a escrever este artigo, junta-se à dor e à tristeza a notícia da morte do meu ilustre colega e amigo, o escultor João Cutileiro.

Cutileiro era o melhor de todos nós, muito talentoso e criador, era um irreverente e um provocador que amava as mulheres de pedra e de carne, como se deve amar as mulheres. João Cutileiro marcou a escultura portuguesa a partir dos anos 80 do século XX. A utilização de ferramentas eléctricas veio conferir um novo estilo à expressão da pedra esculpida por ele. Foi um resistente, anti-fascista, tendo passado pelo MUD juvenil e pelo Partido Comunista Português. A sua vasta cultura proporcionou-nos várias horas de conversa onde ele revelava com frases telegráficas, de forma muito sintética, a profundidade dos seus imensos saberes.
Adeus João Cutileiro.