“U-u! Está alguém aí?”

Há uma publicidade muito divertida na televisão italiana a uma marca de água com baixo teor de sódio: num mundo azul transparente, dentro da garrafa, a única bolhinha de sódio, de olhos grandes e meio assustados, diz “U-uu!”.

Ninguém responde. “U-u!” – repete. “Está aí alguém?” A bolhinha assusta-se. “U-uuu!” 

Perdoem-me a analogia, mas cada vez que penso no Teatro, no Casino, no auditório John dos Passos, com 5 espetadores, só me vem à mente a bolhinha. E imagino um espetador da primeira fila a dizer “U-u!” e a resposta vem da 12ª fila “Estou aqui!”. O calor humano fica reservado ao autocarro, à sala de aulas, à missa, ao restaurante, ao bar – eventos e locais sem a restrição aplicada às salas de espetáculo – onde a bolhinha não ficaria desesperada.

Sei que há quem não goste de petições, não se deixe pressionar, não fique nervoso quando mais de mil pessoas solicitam a sua atenção. Ora, uma petição faz-se no sentido de pedir que se olhe de forma diferente para uma questão, nem sequer é uma crítica, é apenas um recurso para que o destinatário se coloque empaticamente no papel do outro. Sei que há quem não goste, mas vou-me comportar como a bolhinha e dizer “U-u!” em nome de quem de um momento para o outro não vê os eventos cancelados (afinal podem sempre ser realizados com 5 pessoas), mas impossibilitados de se realizarem, dada a inviável relação custo-benefício. O que agentes e operadores culturais, artistas, técnicos ligados a eventos e espetáculos pedem é a aplicação na Madeira da regulamentação nacional que salvaguarda as cerimónias religiosas e espetáculos culturais ou eventos de natureza científica, se realizados em “recintos fixos de espetáculos de natureza artística ou em instituições de ensino superior”.

Isto permitiria que uma sala como a do Teatro, com capacidade para 410 pessoas e que já aceita apenas 50, pudesse continuar a prestar um serviço de valor fundamental à sociedade e, ao mesmo tempo, permitir a artistas e técnicos viver do fruto do seu trabalho. Responder-me-ão os mais versados que existe uma Linha de Apoio de 11 de novembro, mas esta só apoia no setor cultural e criativo “pessoas singulares e pessoas coletivas sem fins lucrativos”. Isto é, conhecendo a intermitência do trabalho dos profissionais das várias áreas das artes e dos técnicos a ela ligados, sabendo que se estes não fizerem os eventos e espetáculos não têm do que viver, apoia-se apenas quem o faz “sem fins lucrativos”. É óbvio que é importante apoiar esta segunda categoria (como as bandas filarmónicas, as escolas de samba, o teatro amador, os projetos nas artes plásticas e na área cultural), mas é fulcral e urgente apoiar a primeira com auxílios imediatos, como a Alemanha e a Itália, estipulando um salário, com regras justas sobre cancelamentos e adiamentos de atividades e proteção social para quem perdeu rendimentos.

Muitas vezes, a sociedade tem uma ideia dos artistas como se estes vivessem do ar que a arte lhes dá. A comida, a casa materializam-se por artes mágicas através das musas no talento a que dão voz, corpo, cor. Desengane-se a sociedade: os artistas e os agentes culturais e criativos vivem do sacrifício e do duro trabalho. A maior parte das vezes mal retribuído. São eles, com a sua dedicação, que nos trazem a cultura e a beleza, a possibilidade de autodefesa intelectual, a lucidez que nos liberta da passividade, da obediência cega, ignorante e programada. Preparando-nos para sermos dignos concorrentes a Capital Europeia 2027, comecemos por ver os artistas não como extravagantes, mas como extraordinários. Até lá, não os abandonemos.

 

Luísa Antunes escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas