“satisfação com a vida”

Agora que iniciamos mais um ano, no qual todos depositamos enormes esperanças e, sobretudo, desejamos que nos traga algo de melhor perante todas as provações, que enquanto humanidade passámos nos últimos meses, será relevante refletir sobre a essência daquilo que nos move como humanos.

Mensurar sentimentos é deveras subjetivo. Mas, constitui um complemento útil -quando possível e seguindo parâmetros aceites por todos-, tendo presente que dados objetivos permitirão comparar a “qualidade de vida” de países. Por outro lado, os dados subjetivos podem fornecer uma avaliação pessoal da saúde, da escolaridade, dos rendimentos, da realização pessoal e condições económicas e sociais de uma pessoa. O apuramento, cruzado, diríamos, entre as pesquisas formuladas nestes domínios podem e internacionalmente são usadas para medir a satisfação com a vida dos cidadãos.

A este propósito a OCDE, através dos seus “Social Indicators”, vem publicando o “Society at a Glance”. O último, que podemos consultar, data de 2019. Aqui, podemos encontrar o indicador “satisfação com a vida”, que mede como as pessoas avaliam a sua vida como um todo, em vez de sentimentos momentâneos de satisfação. Este, refere-se, assim, ao que as pessoas pensam, e como elas se sentem, sobre as suas vidas, os domínios de satisfação e os julgamentos globais de satisfação com a sua vida.

Quando solicitadas a classificar a sua satisfação geral com a vida, numa escala de 0 a 10 a média da OCDE cifra-se em 6.5. Entretanto, a “satisfação com a vida” não é igual em todos os países da OCDE. Alguns países – Grécia, Hungria, Portugal e Turquia - possuem um nível relativamente baixo de satisfação geral com a vida, com pontuações médias de 5.5 ou menos. Na outra extremidade da escala, pontuações alcançaram 7.5 na Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suíça.

Estes indicadores não refletem, no entanto, os efeitos nefastos que a terrível pandemia, que assolou o mundo em 2020, trouxe a variadíssimos níveis. Imaginamos, aliás, que mesmo os países com indicadores mais elevados de “satisfação com a vida”, avaliando tudo aquilo que têm passado com o Covid-19 (casos dos países nórdicos, por ex.) hoje aquele “sentimento” estará uns pontos abaixo.

Entre nós, em Portugal, não obstante, assiste-se também, de forma mais profunda, ao facto de coincidir com aquilo que corresponde a que onde há mais disparidade neste indicador, "satisfação com a vida", alinhar com quem tem e quem não tem estudos superiores. Além disso, ainda, se cruzarmos estes indicadores com o “fosso” entre ricos e pobres, tal realidade ainda é mais considerável. Estima-se, que cerca de 20% da população rica ganha seis vezes mais do que os 20% da população mais pobre.

Tudo isto dá-nos, assim, um contexto social complexo, estrutural, do problema em Portugal.

Se nos dizem que 2021 coincidirá com aquilo que inevitavelmente terá de acontecer, que é recuperar da adversidade que nos assola. Então, a regulação e a intervenção públicas, mais do que nunca, continuam necessárias na educação, na saúde, na cultura, no desenvolvimento tecnológico, nos investimentos em infraestruturas relevantes -mas nestas áreas-, ancorados numa intervenção, que não apenas compense os desequilíbrios distributivos provocados pelo mercado globalizado, mas principalmente que capacite os agentes a competir a nível global.

Não esqueçamos, contudo, que todos os países terão estes desígnios como objetivo e, aqui, e uma vez mais, os mais e melhor preparados serão os sucedidos e todos os outros ficarão para trás.

Quando os políticos procuram entender como melhorar a qualidade de vida das populações, se medidas de bem-estar objetivo são necessárias; reveste-se determinante, contudo, complementá-las com efetivas medidas subjetivas que cheguem às pessoas e às suas necessidades.

 

Eduardo Alves escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas