E depois Chico?

Em tempos idos, Chico, criador de ovelhas, pagou 200 réis na compra de uma égua.

Quando a foi receber o vendedor alegou a morte da besta e haver gasto o dinheiro. Chico exigiu então o animal morto. O outro disse impossível, pois já o enterrara. Depois de discutirem, o negócio foi desfeito com devolução de 100 réis. Ante o prejuízo, o perdedor decidiu rifar o inexistente bicho. Vendeu 500 bilhetes, a 2 réis cada. Apurou assim 1000 réis. Procurado pelo feliz ganhador, visando apossar-se do prémio, Chico informou-o do infeliz falecimento do equino, fingiu lamentar grandemente e devolveu os dois réis da cautela. Tão logo a falcatrua tornou-se pública que o ardiloso passou a ter a alcunha de “Chico, o esperto” e todos se armavam contra as suas astúcias.

Poucas historietas definem tão bem o ser humano. E, sejamos francos, poucas definem tão bem o Português. Afinal qual é o povo que se gaba da sua própria chico-espertice? Os reis do desenrasca, os senhores relações públicas, os grandes anfitriões? Afinal o mundo é dos espertos, dizem. E é fácil descobrir um chico-esperto. É aquele para o qual as filas de trânsito não são um problema. Aliás, tal como qualquer outro tipo de regra, obrigação ou norma a que o cidadão comum esteja sujeito.

“Cumprir como os outros cumprem?! Era o que mais faltava!”

Se o mundo é dos espertos, o português chico-esperto podia muito bem ser o dono do mundo. Só não é se não o quiser, porque um bom chico-esperto pode tudo aquilo que quiser, bastando concentrar-se no assunto. Reclamar o troco duas vezes, ultrapassar pela direita, estacionar em lugares reservados, passar à frente nas filas, não passar recibo, arredondar o preço ao turista, declarar que não sabia que se tinha de entregar o IRS, deixar tudo para o último dia e culpar o gato, o cão, a sogra, etc., etc., etc..

O chico-espertismo subverte tudo quanto é regra do bom senso. O Chico, na maior parte dos casos, até acaba por se safar. Quando as coisas são simples e de pouca monta, normalmente as ‘vítimas’ até deixam passar. Para quê se chatear, não é? Outros não gostam do confronto e engolem em seco. Mas um dia a sorte do Chico acaba. Um dia o jeito para a golpada acaba. Muitas vezes da pior forma. E depois?

Se o ser humano dependesse apenas da sua natureza já estaria extinto. Nós somos um animal milenar e o acaso trouxe¬ nos o humano. Na nossa natureza encontramos uma área emocional, instintiva, sentimental, energética, mas também um campo racional e cultural. A coexistência desta dupla natureza (instintiva e emocional vs racional) nunca foi e não é nos nossos dias pacífica. Não somos por isso um ser equilibrado, harmónico, em que as nossas condutas sejam ditadas por critérios unicamente racionais, quer enquanto indivíduos, quer enquanto sociedade.

É esta vivência entre a perfeição e o abismo que nos dita a vida e que, de alguma forma explica que, por exemplo, mesmo perante todas as evidências que a ciência nos traz há séculos, ainda persistam aqueles que acreditam que a terra é plana e que o sol gira à nossa volta. Quem prefira acreditar em teorias da conspiração estapafúrdias do que nas evidências à frente do seu nariz. Quem pretenda persistir em sistemas políticos e administrativos que o passado já demonstrou serem um fracasso, alguns responsáveis pelas piores memórias da humanidade enquanto civilização.

E depois Chico? Depois a conta chega para pagar. O problema é que, muitas vezes, pagamos todos nós essa conta.

Vivemos dias de pandemia. Não há volta a dar. Mesmo para aqueles que não acreditam que ela exista ou que há coisas mais importantes na vida do que um vírus que, quanto muito, “mata velhotes”, o problema está aí, mais uma vez, a bater à porta. E meu amigo Chico, isto algum dia vai correr mal. Ó Chico, tu que continuas na tasca, a rir-se dos tansos que andam por aí de máscara com ar de totós; ó Chico, tu que andas de máscara no braço, se calhar a mesma de há uma semana para cá, só para colocar se alguém reclamar; ó Chico, tu que já combinaste ir à poncha do amigo, que abre às escondidas só para ti, quando toda a gente é obrigada a estar em casa; ó Chico, tu que continuas a fazer festas para os amigos em casa, como se não houve amanhã; ó Chico, tu que continuaste a te gabar de fugires às polícias só para fazeres o que não é recomendado; tu Chico que ao leres isto pensas ‘olha-me este armado em bom, mania que é esperto, tás é bem de vida por isso falas assim’; ó Chico, um dia isto vai correr mal.

E no fim do dia a culpa é dos gajos do governo, das autoridades que não fiscalizam, do Elvis, do Ronaldo, dos ETs... 

 

Luís Miguel Rosa escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas