O tipo que entrega papéis

Observo aquele tipo que passa debaixo da minha vidraça, em cadência monótona, braços como pêndulos lassos, numa irresistível e desiludida ligação à terra. A forma como se bamboleiam os braços reflecte a personalidade de um homem.

Já me é tão familiar que lhe chamo José, porque tem ar de José. Deve estar na casa dos 40 anos, mas a barriga proeminente, a tez flácida, o cabelo desarranjado, o olhar ausente, colam-lhe pelo menos mais 10. Todos os dias o vejo passar, à mesma hora que vai e à mesma hora que vem, com uns papelitos debaixo do braço, guardados quais papiros sagrados. É o seu trabalho, levar e trazer uns papelinhos de uma repartição burocrática para outra, o que faz sem inquietações, sem perguntas e sem se importar com o seu conteúdo. Veste uma calça azul e uma camisa branca, de má qualidade e uns sapatos emoldurados por desenhos joanéticos, empoeirados e baços. O cabelo oleoso, levemente casposo, vai-se-lhe rareando e no turno da tarde o sovaco vai deixando já pelo caminho um rasto de suor. Julgo que há 10 anos, o tipo fazia o mesmo percurso enfadonho todos os dias e aposto que daqui a 10 anos, quando eu olhar pela minha vidraça de novo, lá estará ele, vagaroso e pachorrento, com os seus papelinhos debaixo do braço, os cabelos que lhe sobram nas têmporas já esbranquiçados, a sua imagem de sempre mais desbotada pelo tempo, os papos nos olhos mais salientes, um duplo queixo desordenado e o mesmo sovaco odorífico. E lá vai ele, entregar os papelinhos que sempre entregou, sem perguntas, o mesmo olhar ausente de quem não sonha, nunca sonhou com qualquer outra coisa que não os míseros trocos que lhe pagam todos os meses e que lhe dão para pagar a casa que o Estado lhe franqueou, a imprescindível internet para os filhos, as coisas do mês. De vez em quando o luxo de uns trapinhos de saldo nas multinacionais espanholas e um franguinho assado uma vez por semana e um copinho de vinho tinto de molhos e é feliz, porque é esse o mundo que conhece, o mundo que pôde conhecer. Nós somos do tamanho do que conhecemos, do que sabemos e ele não conhece mais, não sabe mais, nem podia. Apesar desta limitação de coisas, de artefactos, há naquela casa tudo aquilo que o dinheiro não compra, não pode comprar. Como qualquer outro, o tipo quando podia, fazia o mesmo sexo desenfreado com a mulher. Cruamente, sem desodorizantes íntimos, perfumes franceses no lóbulo das orelhas ou lingeries sensuais e até concedendo prazeres orais não confessados. O mesmo amor ilimitado pelos filhos, o mesmo empenho para lhes dar, pelo menos, uma vida não inferior à da entrega dos papelinhos e se possível um cursozinho numa escola profissional que lhes permita um voo mais alto. Quem sabe ficar no lugar dos senhores que lhe entregam os papéis que leva debaixo do braço. Já seria muito bom. Este tipo que passa debaixo da minha vidraça há-de ser acometido por um enfarte fulminante do miocárdio e finalmente darão pela sua existência lá no serviço e será enterrado debaixo de choros impiedosos e rodeado do perfume das flores que o seu sovaco nunca pôde experimentar. Ou chegará o dia em que vai gozar a sua merecida reforma, onde deixará de entregar papelinhos e estará livre para jogar umas cartas no jardim com os seus comparsas e prazentear-se com a companhia dos netos que vivem consigo. Até ao dia em que a cabeça deixe de funcionar como fazia e comece a julgar que é um figuraço qualquer que viu na televisão e acabe por ir viver para um lar de idosos público onde acabará a sua história, sem história, no meio de milhões de histórias parecidas, de tipos que passaram os dias a entregar papéis, com um olhar baço, sem brilho de ilusão ou sonho.