Funchal dói-te pt!

Imagine que acedia a um site com o endereço "Madeira.pt" e, ao invés de se deparar com informações sobre a história da Região, atrações turísticas, ou informações úteis para residentes e visitantes, se deparava com uma espécie de Jornal online, cheio de propaganda de governantes, versões truncadas e enviesadas das questões mais incómodas para a governação regional. Imagine também que essas publicações, facilmente confundíveis com as de um jornal online "a sério" constituíam réplica do que ia sendo publicado no site oficial do governo, também este apontando destaque para propaganda política no lugar de informação institucional e ao cidadão.

Imagine-se que esse "jornal", ou "portal de notícias", era sorrateiramente partilhado nas redes sociais por um exército de perfis falsos, de modo a propagandear a imagem política do líder do governo e servir de contraditório, de veracidade duvidosa, aos embaraços e putativas trapalhadas governativas. E já agora dê de barato a contratação de recursos, humanos e logísticos, para operacionalizar esse "jornal".  Era um escândalo, não é? Comissões de inquérito, telejornais, fact checks, publicações em blogues anónimos. Já agora faça o exercício mental de substituir "madeira.pt" por "funchal.pt" e reler todo o texto acima na perspetiva da autarquia funchalense. No Pasa Nada! Normal. Lembrei-me de fazer este exercício de criatividade ao ler esta semana uma suposta notícia que sugeria que o Tribunal Administrativo do Funchal teria desautorizado a decisão do tribunal de contas de chumbar a adjudicação por parte da Câmara da empreitada da antiga escola de Santa Rita. Quem mandou escrever a "notícia" sabe bem que o Administrativo apenas confirmou que a empresa vencedora poderia ter concorrido, mas não se pronuncia, sobre a decisão de vitória. Nem podia. Ou seja, o Administrativo diz que a empresa pode estar no concurso e o TC diz que ela não pode vencer o mesmo, por ilegalidades na adjudicação. Coisa diferentes. Para o funchal.pt, não são, embora na última linha lá diga que o concurso tem de ser repetido. Fui ver as restantes "notícias", e o tom é sempre o mesmo. Assemelha-se com um canal de clubes de futebol, onde a nossa equipa perde sempre por culpa do árbitro, dos penáltis que não foram assinalados, ou porque, vejam só, o guarda-redes do adversário decidiu defender tudo! E nunca(!) o presidente do nosso clube tem culpa das trapalhadas em que se mete! É pena que um domínio online com a dignidade que o nome funchal.pt exigiria, esteja reduzido a este nível de mediocridade. Um meio termo entre o "esquerda.net", do BE, e a BTV do Pedro Guerra (atenção, sou benfiquista).

14 minutos!

Encontrei há dias um militante socialista que me dizia: "Ainda ontem o presidente da CMF teve direito a 3 peças no telejornal, mais que todo o governo junto. Isto estatisticamente é uma aberração"! Fiquei a matutar no assunto até porque já não era a primeira vez que me diziam algo do género. Não está em causa a necessidade de aparecer, de se tornar conhecido, nem a diligência em organizar momentos mediáticos para aparecer na (antiga) tela mágica. O que é realmente estranho é que tendo a RTP-M recursos limitados, e não podendo comparecer a todas as solicitações que lhe são sugeridas pela agenda política, não dispense a presença nas mais banais iniciativas da autoria camarária.  Um exemplo disso mesmo são os já famosos 14 minutos(!!!) a que o edil do Funchal teve direito no telejornal de dia 2 de janeiro, para exigir qualquer coisa que se percebeu serem uns "instrumentos como têm no continente" de combate à pandemia, que não chegou a concretizar, nem foi questionado sobre os mesmo, e sobre os quais a CMF não tem qualquer jurisdição. Mas ficou bem na fotografia. Destaque-se a competência e inteligência mediáticas. Mas qual a razão do telejornal da RTP transmitir 4 minutos de peça gravada mais 10 minutos em estúdio, sobre o mesmo tema, com a mesma pessoa? Porque não esteve também em estúdio Pedro Coelho, do outro conselho visado nas peças? Porque não foi confrontado o edil do Funchal com a sua insistência em organizar a Noite do Mercado, quando toda a prudência sanitário o desaconselhava e, felizmente, a autoridade de saúde regional não o autorizou?