Finalmente negativo

No melhor pano cai a nódoa. Eu que sempre fui o mais transparente possível. Que escrevo o que penso e digo o que sinto. Que não gosta de estar em cima do muro, mas sim de escolher um lado e assumi-lo... Agora tenho que gramar com testes inconclusivos!? Recuso-me. Desculpem, mas não. Repitam o teste quando e quantas vezes quiserem. Violem-me as narinas vezes sem conta. Prometo não oferecer resistência. Escarafunchem-me o sininho da garganta até eu ameaçar vomitar. Força. Mas não me digam que estou meio infectado, meio recuperado. Assim foi, uma semana depois (como manda o protocolo), voltei a ser testado. Ontem, pela fresquinha e de forma carinhosa, voltaram a coçar-me o nariz até me fazer cair uma lágrima. Só restava aguardar. Horas depois chegou o veredicto. ESTOU NEGATIVO!!

Como, desde o início vos disse, quero que saibam de tudo pela minha escrita e não vão em conversas... Posso garantir-vos que ainda sou a pessoa que mais sei da minha vida! E sim, o meu teste da semana passada, apesar de duplo, foi inconclusivo. Já o resultado de todo o meu agregado familiar foi negativo. Torno-me assim, provavelmente, num caso de estudo! Ou estou, inclusive, sujeito a um louvor. Modéstia à parte, devo ser dos únicos positivos que não contaminou mais ninguém.  Nem amigos. Nem inimigos. Nem assistentes. Nem mesmo a minha família que comigo convive toda a parte do dia em que não estou a trabalhar. Egoísta, dirão alguns? Responsável, respondo eu. Experimentem estar fechados uma semana na mesma casa e mesmo assim não infectar, através de um abraço mais apertado ou um beijo mais afectuoso, alguém de quem gostam muito. Experimentem. Vá lá. Vão ver que dormir na varanda e passar o dia na casa de banho em apneia não é para qualquer um. É de pedir mesmo só uma coisa ao Pai Natal: Socorro!

Senão reparem. Esta coisa do covid tem muito que se lhe diga. Não, já não falo do sentimento de culpa que nos querem impor. Falo sim na exposição a que a nossa vida fica sujeita. Desde logo somos questionados sobre quantos e quais os contactos que mantivemos até determinado dia. Ficam, automaticamente, a saber do nosso quotidiano, mas também dos daqueles que connosco privaram. Eu imagino então como se devem estar a sentir alguns açorianos. Sim, porque neste momento ser homem e ter covid em Ponta Delgada, é estar fortemente associado a uma cadeia de transmissão com origem num bar de strip. E se fosse comigo? O que diria à minha mulher? Felizmente o meu caso, segundo desconfiam, vem de um jantar de sushi com ela. Mas e se tivesse sido de um bacalhau cru sem ela? A esta hora o isolamento não ia ser de 14 dias. Era definitivo mesmo. Ela já me avisou!

Avisado estou eu também, da insatisfação do ex Presidente do IaSaude e actual diretor regional da Saúde. Vi-o e ouvi-o dizer, na televisão, que as pessoas não andam a ter comportamentos corretos! Tem razão sim senhor. Mas tenha cuidado pois onde eu estive, esteve gente que prega bem melhor que sua excelência e manda mais um bocadinho. E não. Volto a reforçar. Não andamos todos em festas e noitadas. Não andamos aos beijos e abraços. Não comemos do mesmo prato! Reduzimos os nossos contactos. Vamos apenas onde nos deixam e como nos deixam. É obrigatório o uso de máscara? Usamo-la. A saudação é com o cotovelo? Acenamos apenas. A mesa é limitada a 5 lugares? Respeitamo-lo. A retirada é, o mais tardar, às 23h? Antes disso estamos em casa. Mesmo assim não está satisfeito? Acha que, apesar de permitir, quem vai (e respeita todas as instruções) é desordeiro? Então é simples. Não permita!

Mas nem tudo é mau. Acreditem. Tenho-me sentido o mais próximo de morto que existe. Calma. Não estou a falar de sintomas! Continuo assintomático. Falo do carinho que tenho recebido. Sim, desse que só se recebe depois de ir desta para melhor! Confesso que tem sido uma experiência única. A minha mulher diz que é parecido a se estar grávido. Não sei! Sei é que é raro o dia em que não sou surpreendido por pessoas que me dispensam um enorme carinho. E muitas, eu assumo que não estava nada à espera! Chegam-me mensagens. Chamadas. Lanches. Jantares. Eu sei lá! Estou encantado. Reconheço que se as autoridades de saúde me quiserem manter em cativeiro até janeiro, eu não me oponho! Já dei por mim a pensar no que não será estar fechado no Natal?! Não poder oferecer prendas, mas poder continuar a recebê-las. Ter as comidas que mais gostamos deixadas à porta. Ter desculpa para não ir aqueles convívios chatos com família que só se vê num 25/12 e no 25/12 seguinte... No fundo, só fico com pena de não poder ir ver as luzes, mas pronto. Não se pode ter tudo!


PS: se alguém vos ligar a dizer que me viram na rua, por favor tranquilizem-no(a). Informem que estou negativo. Peçam que passem a mensagem com a mesma velocidade com que passaram a contrária! Vai ser um tirinho...

Por falar nisso, sabem se o meu vizinho que andou aos tiros já foi mesmo detido e encontraram a arma? É que do covid eu recuperei... Mas também não sou de ferro!