Vai chegar ao poder local

Este tornado político que está a varrer o espaço continental já era previsível. Nasceu por coincidência nos Açores e quando menos se fazia esperar. Mostra que a direita radical veio para ficar e para agitar o status-quo instalado no País desde a Revolução de Abril. Na verdade, continuamos ainda dominados pela esquerda e pelo politicamente correto que teimam em fechar os olhos às novas realidades do País e do Mundo. Muitas verdades foram ficando escondidas em bolhas sociais sem voz nos espaços mediáticos. Foi como pedrada no charco. Para que tudo despoletasse, bastou o favorável contexto internacional e a ascensão de um líder populista. André Ventura não é recomendável, sobretudo pelo ataque demagógico a valores civilizacionais, mais do que pelas propostas de alteração da Constituição, do sistema judicial ou do sufocante modelo fiscal, mas já faz parte do sistema político e não há volta a dar ao Chega. É uma decisão soberana e democrática do povo português que a esquerda, sobretudo a mais radical, não tem moral para criticar.

Agora, é gritos de “valha-nos Deus” daqueles que se tendo apropriado dos méritos da revolução dos cravos, trancaram o país na sua ânfora, impedindo por décadas que outras verdades, para além das suas, se impusessem no espaço político. Mais de quarenta anos depois, a esquerda radical com a bênção dos seus aliados socialistas, ainda agitam o fantasma do fascismo, para tentar assustar os portugueses que ousam pensar fora da caixa ideológica que eles teimam em impor ao país. Ao longo das últimas décadas tudo o que não lhes convinha era apelidado de fascista. Foi Sá Carneiro, Cavaco, Passos Coelho, Alberto João e todos os líderes do CDS. Na Europa era Merkel que, ironicamente, agora virou o modelo que a esquerda aponta para combater o populismo da extrema-direita. O Partido Socialista acha-se dono e senhor do País e Costa até já tinha determinado, na sua arrogância, com suporte nas alianças à esquerda, que a direita não era necessária, nem seria ouvida ou achada sobre o futuro de Portugal. O PSD seria apenas mais uma bengala para aprovação de medidas e políticas que os seus aliados recusassem. O PS seria para sempre uma espécie de “rei -sol” à volta do qual todos os outros partidos andariam de cócoras. Mas as coisas são como são. E o acordo dos Açores é a prova de que os socialistas, na sua ganância pelo poder, abriram a caixa de pandora no modelo de governação. Depois da aliança de Costa com a extrema-esquerda para chegar a primeiro-ministro, sem ter ganho as eleições, nada será como dantes.

Agora foi nos Açores. Para o ano será nas autarquias. Embora as razões que levam a votar no Chega tenham tudo a ver com a situação política nacional e pouco ou nada com questões de ordem local. O contágio, porém, é inevitável e os partidos do arco do poder vão ver-se, muitas vezes, obrigados a se entregarem nos braços dos partidos radicais, à esquerda ou à direita. Sendo que, nas autarquias, mais do que partidos ou ideologias, são as pessoas que contam. Por isso, se necessário, haverá acordos entre todo o tipo de eleitos pelos partidos e até de independentes. Que podem ser da mesma área ideológica ou não. A menos que finalmente se queira reformar a mais do que caduca lei eleitoral das autarquias. O que não acredito. Porque neste país a coisa só muda quando rebenta.

A nível nacional, as determinações das lideranças partidárias são respeitadas. Nas regiões autónomas nem tanto (há quem garanta que os deputados açorianos se preparavam para sair do Chega). Nas autarquias muito menos. Há múltiplos casos de indisciplina partidária e de alianças contranatura que, a partir de agora, quando conveniente para as partes, vai incluir o Chega. Pode até a esquerda moderada e a esquerda radical arrancarem os cabelos. Nada trava esse processo, a não ser que o Chega definhe. Só possível por questões internas ou pela assunção de políticas mais musculadas e reformistas por parte do PSD ou do CDS, com o PS a deixar passar. Ou até com a afirmação de uma liderança mais empolgante da Iniciativa Liberal.