Uma epidemia nunca vem só

Com o mundo e a vida em stand by, é difícil ganhar alento para o Natal. Tirar o pinheiro da caixa, desempoeirar as bolas, ou a estrela cadente, deixou de fazer sentido, pelo menos para mim, neste tempo interrompido por um vírus. Salvar o Natal tornou-se uma missão quase impossível, quando salvar vidas passou a ser a prioridade maior. Na verdade, essa deveria ser a verdadeira essência do Natal, salvar vidas!  É impossível ficar indiferente ao que nos rodeia, aos que perderam a vida, aos familiares, aos que estão na iminência de perder o emprego, aos que já o perderam, aos que estão sós, aos que estão sem rumo, aos idosos.

A segunda vaga veio sem tréguas e fez emergir uma série de protagonistas que encontraram no coronavírus o pretexto (e o contexto) ideal para se manifestarem. Uma epidemia nunca vem só e, num curto espaço de tempo, fomos confrontados com um conjunto de estirpes que, no seu conjunto, agudizam o alarme social e distorcem a perceção da realidade. Dessas estirpes, destaco as seguintes:

1ª. A desinformação generalizada - com os pseudo-especialistas em tudo e no seu contrário a intoxicar-nos com as suas teorias da conspiração, à margem do conhecimento científico e das realidades territoriais. Não fossem os esclarecimentos dos epidemiologistas Paulo Portas e José Miguel Júdice, com “currículos irrepreensíveis em matéria de saúde pública”, ficaríamos todos à mercê das banalidades das redes sociais.

Com o conhecimento de que dispomos sobre este vírus, com as dúvidas que persistem um pouco por todo o mundo, a ciência continua a ser a nossa melhor fonte, a nossa salvaguarda e a nossa esperança. Tudo o resto é ruído.

2ª. A manipulação oportunista, que decorre (em parte) da primeira, com os protagonistas de serviço a alimentarem-se do medo, do sofrimento e da fragilidade alheia para preencherem manchetes de jornais, aberturas de noticiários e, assim, se afirmarem como os heróis de um qualquer setor de atividade. Como refere um autor indiano que tenho vindo a descobrir (Jiddu Krishnamurti), “há muita gente que se revolta contra as ortodoxias estabelecidas apenas para, logo a seguir, cair em novas ortodoxias, noutras ilusões e em apetites pessoais obscuros”. E há revoltados com registos para todos os gostos: uns com um registo mais subtil e dissimulado, outros num registo mais agressivo e radical, outros num registo mais irónico e outros, ainda, que alteram o registo de acordo com a sua conveniência pessoal e com os interesses do momento. Faz parte do jogo. Mas este é um jogo demasiado perigoso, numa altura em que o tabuleiro de xadrez se apresenta demasiado frágil e incerto. Precisamos de um tabuleiro robusto e de gente que saiba jogar limpo, apontando e reconhecendo os erros com honestidade intelectual, aprendendo com eles e, a partir deles e do conhecimento científico produzido, ajudar a encontrar soluções exequíveis, cientificamente sustentadas, que nos protejam e que atenuem os danos que, inevitavelmente, recairão sobre todos, em maior ou menos dimensão. É preciso proteger aqueles que, por via das suas circunstâncias pessoais e laborais, se encontram em situação de grande vulnerabilidade. Mas é preciso que cada um continue a fazer a sua parte, sem tréguas nem exceções.

3ª. O agravamento das desigualdades – que acentua as assimetrias socioeconómicas e que empurra as mulheres para uma situação ainda mais vulnerável. Sendo o salário das mulheres habitualmente mais baixo dentro do orçamento familiar, acabam por ser estas as mais sacrificadas, quer na manutenção do emprego, quer nas questões relacionadas com a conciliação de tarefas. São as mulheres que estão, maioritariamente, na retaguarda do combate à pandemia e continuam a ser elas as mais penalizadas em todas as dimensões (pessoal, profissional e salarial). As medidas de conciliação tendem a ser, neste contexto, relegadas para segundo plano.

4ª.  A apatia social – que, in extremis, conduz à desresponsabilização, ao desinteresse, à depressão, ao egoísmo, à naturalização das falsas narrativas, de falsas moralidades, entre outras consequências que nos fragilizam individual e coletivamente.

Resta-nos esperar que o anticiclone dos Açores não venha a provocar (também) altas pressões do lado de cá do Atlântico e que o populismo e a demagogia não venham a provocar uma outra pandemia, com impacto na saúde da nossa democracia.