Cheringonça

"Um estadista pensa nas próximas gerações, um populista pensa nas próximas eleições". CLARKE, James Freeman.

A minha intervenção cívica não é sinónimo de lutas partidárias, mas de princípios e valores dos quais jamais abdicarei. Desta feita, intervirei, sempre que necessário, em favor da democracia, contra populismos ou extremismos.

Dito isto, considero o Sr. Ventura um populista e, como todos os populistas, um constituinte nocivo para a democracia, tal como a conhecemos.

Este Senhor é, demasiadas vezes, qualificado como homem de extrema-direita. Não é. É, sobretudo, um oportunista e um populista, com particular capacidade para dizer ao seu potencial eleitorado o que este quer ouvir. A sua capacidade de manipular e o seu sentido de oportunismo são evidentes. Assim, dizer que o Sr. Ventura não é radical não invalida reconhecer que o partido que lidera integra elementos de extrema-direita, radicais, não democráticos que, a par do populismo do seu líder, permitem a este partido criar brechas na democracia que poderão vir a ser insanáveis se nada fizermos.

O Sr. Ventura, além de populista e oportunista, é um tacticista. Destacou-se por ter sido comentador desportivo e, agora, pela sua forma de fazer política. Em nenhum destes momentos transmitiu solidez na matriz de princípios e valores na qual deveria assentar a ideologia do seu partido. O seu partido baseia-se, ao que se sabe, no repentismo.

Entendo que o que se passa nos Açores não é uma vitória contra o Partido Socialista. Não é uma vitória para a democracia. É, tão somente, a vitória da Cheringonça, com os custos que isso poderá acarretar no futuro próximo.

Reconheço como salutar a alternância democrática, mas defenderei sempre que deve governar o partido mais votado e não aquele que conseguir estender uma passadeira aos partidos populistas sem uma matriz ideológica que os limite.

Dir-me-ão que também há partidos de extrema-esquerda que são igualmente perigosos para a democracia. É verdade, mas não em Portugal. Nesses partidos portugueses reside uma matriz ideológica bastante enraizada que os limita e que os distingue na sua intervenção. O programa, os princípios e valores do Chega resumem-se, como disse, ao repentismo e ao número de votos que consigam obter com este ou aquele discurso, naquele momento, conforme o eleitorado que pretendem conquistar.

Procurar assegurar a alternância democrática alicerçados na vontade (repentista, reitero) de um partido ideologicamente vazio é uma solução verdadeiramente perigosa para a democracia – o que hoje é, amanhã poderá não o ser.

Juntar a direita (ou a esquerda) democrática a elementos extremistas radicalizados é aquilo a que eu chamo de 'açorda': água e azeite não se misturam. E menos ainda pela sede de poder. Seja à direita, seja à esquerda.

As causas de direita (e de esquerda, atente-se) podem e devem ser defendidas com convicção, mas, neste caso, não devem os partidos ou o povo iludir-se sobre a prometida estabilidade governativa nos Açores quando não se consegue vislumbrar qualquer tipo de princípio que faça honrar o compromisso parlamentar assumido entre as partes.

A única certeza de que podemos ter, nos Açores e em qualquer parte do mundo, é a de que o combate aos Venturas faz-se com partidos que se importam realmente com as pessoas. Quando as pessoas não se sentem protegidas pelo Estado, nascem os populismos. Esta é uma mensagem que não deve ser ignorada.

A política não se faz recuando na história, faz-se aprendendo com a história.

E a história ensinou-nos que quem abdica dos seus princípios por poder, acabará por perder os dois.