Em busca do propósito encantado

Imagine o leitor que está a atravessar uma das ruas do Funchal, junto à bela Igreja da Sé, em obras de requalificação no seu exterior, e depara-se com um pedreiro. Quando lhe pergunta o que está a fazer ele responde: “estou a fazer uma parede.” Cinco metros à frente, encontra outro pedreiro a quem faz a mesma questão à qual este responde: “estou a construir uma catedral.” Foi algo semelhante que aconteceu durante a visita do então Presidente dos Estados Unidos da América John Fitzgerald Kennedy às instalações da NASA em 1962, quando este interpelou um guarda de serviço: “Olá, sou Jack Kennedy. O que está o senhor a fazer?” O homem respondeu: “Bem, Sr. Presidente, estou a ajudar a colocar um homem na Lua.”

O propósito pode ser definido como uma chamada espiritual e moral para a ação, aquilo pelo qual uma pessoa luta e que é fonte de significado para aquilo que faz. A este respeito, Mark Twain dizia que “os dois dias mais importantes da vida de uma pessoa poderão ser aquele em que se nasce e aquele em que percebe porquê.” É uma verdadeira fatalidade que muitas de nós vivam este segundo dia tardiamente. E porquê? Porque movidos por propósitos com significado apresentamos menos problemas de saúde, maior bem-estar e mais energia. Compreendemos melhor as nossas forças e as nossas prioridades, reforçando as áreas em que somos competentes e clarificando aquilo que confere sentido à nossa vida, em prol de uma causa maior, imaterial e transcendente. A este propósito, Florbela Espanca sabiamente afirmou que “se penetrássemos o sentido da vida, seríamos menos miseráveis.” Mas se a vida sem sentido acarreta riscos, a sua procura envolve outros tantos perigos.

O primeiro perigo é a sua procura forçada. Para muitos, tornou-se obrigatório ser feliz e encontrar à força um significado para a vida. O que é virtuoso, em excesso torna-se vicioso.

O segundo perigo é tornar-se a nova moda da literatura do desenvolvimento pessoal. As livrarias estão repletas de livros sobre felicidade, coaching e mindfulness. Mesmo que o propósito se torne a nova tendência, o que realmente importa é a essência e essa… não se vende em pacotes.

O terceiro perigo é o risco da própria palavra “propósito” ficar gasta. Já existem pessoas a reagir negativamente ao termo “coaching”, graças à sua banalização. A palavra “felicidade” tornou-se tão asfixiante que chega a geral o efeito contrário. Por seu turno, ouvir a expressão “mindfulness” pode pôr qualquer um em regime de mindlessness. Algo semelhante poderá vir a ocorrer com o propósito. Esperemos que não.

Finalmente, há um perigo ainda mais obscuro. Os nossos líderes podem começar a utilizar o propósito como uma ferramenta de engenharia social destinada a controlar a nossa mente, desde as emoções mais básicas até aos nossos valores mais íntimos, fazendo do propósito sinónimo de um mundo pior.

A lição que podemos retirar é simples: para que a nossa vida seja rica em significado não precisamos de brilhar, do sucesso absoluto, de realizar grandes sonhos ou de sermos os heróis de grandes epopeias. A jornada é mais importante que o resultado da mesma. É o caminho feito com dignidade, mais que o grande desígnio, que confere significado à vida. Certa vez, Steve Jobs abordou o então CEO da Pepsi-Cola John Sculley, na tentativa de o recrutar para semelhante função na Apple. A sua mensagem foi simples: “Quer continuar a vender água açucarada durante o resto da sua vida? Ou quer uma oportunidade para mudar o mundo?”