O fascismo vem aí!

Desde que foi conseguido o acordo entre as forças políticas de direita nos Açores, aumentou exponencialmente a demonização do Chega e de André Ventura.

Por parte do PS, é estratégico e tem por objetivo enfraquecer o PSD, colando-o a uma suposta extrema-direita. Por parte da esquerda radical (PCP e BE), o empenho é genuíno uma vez que têm ali a sua Némesis, do horizonte ideológico oposto. Não é surpreendente e faz parte da dialética política. O que é estranho é que parte do PSD e quase toda a comunicação social tenha alinhado por este diapasão. É estranho, ou talvez não, porque a comunicação social portuguesa foi e é condescendente com a esquerda radical e mesmo com a extrema-esquerda, sendo permeável à sua retórica e aos seus temas-tabu. Esta é a razão pela qual a direita política portuguesa sempre foi envergonhada, porquanto maldita, também fruto da desgraçada herança salazarista que deixou associada à direita política a imagem do autoritarismo, da censura, da perseguição política, do desrespeito pelo Estado de Direito e pelos direitos fundamentais das pessoas.

Já no interior do PSD, as críticas surgem essencialmente por via dos “Passistas”, que ainda não perdoaram Rui Rio pela derrota de Luís Montenegro nas eleições internas e não perdem uma única oportunidade para minar a atual liderança.

O Chega e Ventura são, assim, a nova “bête noire” que vai servindo para disseminar a ideia de que o fascismo está à porta da democracia portuguesa. Mas estará mesmo?

Tenho dito e reafirmo: identifico-me muito pouco com o Chega ou com o seu líder. Todavia, em consciência, não posso compactuar com esta efabulação que tem por objetivo limitar o debate e o espectro políticos.

1. O acordo nos Açores é um acordo regional. E os dois deputados eleitos pelo Chega não são perigosos neonazis, mas antes dissidentes do PSD-Açores. Mesmo que pretendesse, Ventura não conseguiria impedir que os deputados viabilizassem um governo PSD. Não apenas porque a candidatura do Chega açoriano teve por objetivo derrotar o PS, mas porque os dois deputados têm a perfeita noção de que se não fossem parte da solução, seriam parte do problema e em novas eleições não voltariam a ser eleitos.

2. Como bem distingue Riccardo Marchi, no seu "A Nova Direita Anti-Sistema - O Caso do Chega", extrema-direita e direita radical não são sinónimas. A extrema-direita resulta em movimentos e partidos subversivos, violentos e antidemocráticos. A direita radical constitui-se por movimentos ou partidos críticos do sistema, populistas, mas que aceitam as regras do jogo democrático. Na opinião do investigador, com a qual tendo a concordar, o Chega é um partido da direita radical. Na extrema-direita estão grupos e movimentos skinheads e ultranacionalistas. De resto, o Chega está para a direita como o BE ou o PCP estão para a esquerda.

3. Não nego que haja extremistas entre os militantes do Chega. Bem prova disso, foram algumas das propostas deploráveis apresentadas no congresso de Évora. Contudo, é preciso que se perceba que no PCP também moram muitos estalinistas, por exemplo.

Grande parte dos militantes do Chega são dissidentes do PSD, do CDS e pessoas que não se reviam no espectro político português e que se viram representadas nas propostas de Ventura.

4. Como partido de direita, é mais do que legítimo que possa vir a constituir-se como parte de soluções futuras de governo. E não há mal nenhum nisso. Aliás, a melhor forma de desradicalizar um partido ou movimento é trazê-lo para o mainstream e, eventualmente, partilhar poder. Veja-se o que aconteceu com o SYRIZA ou o Podemos. Em democracia, todos os votos contam e não há votos com mais valor do que outros. Os portugueses que votam ou vierem a votar no Ventura merecem tanto respeito quanto os que votam nos outros partidos.

5. Percebemos o pânico quanto a Ventura. De facto, nunca a direita radical portuguesa teve um líder tão carismático, que não tem qualquer receio em ser populista e em vir para a rua. Isto é algo novo. Mas é algo novo com o qual teremos todos de conviver, porque o André Ventura é um político inteligente e perspicaz, mas ainda muito novo e andará por cá muitos anos. A democracia portuguesa ganhará mais em normalizar o Chega do que em ostracizá-lo. Até porque o Chega ajuda a libertar um pouco a pressão e as tensões sociais. Se não for o Chega, poderá ser outro bem pior!

6. Em democracia não pode haver assuntos-tabu. Esse é o seu paradoxo, mas não seria democracia se assim não fosse. Portanto, os temas do Chega são tão passíveis de ser discutidos quanto os dos outros partidos. Em vez de tentarem impedir o debate, os partidos do sistema deveriam era estar a preparar a desconstrução da argumentação.

Por fim, esta conversa de “o Fascismo vem aí” já cansa. O PSD foi fascista, o CDS foi fascista, o PND foi fascista, a IL é fascista, o Chega é fascista. Todos os partidos à direita do PS são fascistas e, para os jacobinos portugueses, parte do PS é fascista (veja-se o que dizem do socialista Sérgio Sousa Pinto). Mas isto faz lembrar a história de “Pedro e o Lobo”: tanta chamam, tanto chamam, que um dia o fascismo virá mesmo. Relaxem, todavia, que, com a graça de Deus, ainda não foi desta!.