A rotina é um espanta-espíritos mortal

Hospital Central do Funchal, consulta externa, 09:10. Chamaram o meu pai para ser atendido e eu fiquei à espera dele no corredor, sentado numa cadeira de plástico com os olhos postos nas botas novas – quando as coisas são novas, a gente não para de olhar para elas e, no meu caso, é por vergonha do seu brilho espampanante e inapropriado – ou então com os olhos postos no vazio – o corredor é um dos melhores símbolos do vazio e num hospital atinge a perfeição – a pensar num bom lugar para assistir ao fim do mundo em curso, este que aqui vai – já diziam os antigos que tudo corre para o fim – e ali estava eu a pensar num bom lugar para ver o fim do mundo como se faz com o fogo de artifício no fim do ano, um lugar com vista para a baía e o anfiteatro, não muito perto, porque se perde a noção do geral, nem muito longe, porque nos escapa a beleza do pormenor – neste caso eu diria o horror do pormenor – e depois fica-se com a sensação de que não vimos nada e os outros é que viram tudo, coisa que até se aceita tratando-se de espetáculos pirotécnicos – vá lá, para o ano há mais – mas que é intolerável, verdadeiramente intolerável, quando estamos perante o fim do mundo, algo que só acontece uma vez na vida, não se pode adiar, não há outra vez, é como a morte, pois não é por isso que estou aqui no hospital, pensava eu, para adiar a morte do meu pai e preparar a minha, para saber em que corredor devo esperar?

Ao fundo, o funcionário mede a temperatura a quem chega, substitui máscaras comunitárias por cirúrgicas, impõe a lavagem das mãos com álcool-gel e as pessoas avançam esfregando-as como se lá fora estivesse a nevar. Placa verde. Placa laranja. Placa azul. Cada cor uma especialidade. Cada especialidade uma hipótese de salvação. Cada salvação uma garantia de mais tempo para gerir o medo e assistir ao apocalipse.

Do sítio onde me encontro avisto a sala onde o meu pai entrou apoiado na bengala há mais de quinze minutos e o meu pensamento deambula agora na extensão branca e infinita da porta fechada, em silêncio, como espírito perdido em casa abandonada à espera dos vivos para provar a sua existência, mostrando-me coisas que eu não sei dizer porque estão desconstruídas, é preciso montá-las, afiar-lhes as pontas e depois espetá-las no coração de quem só compreende o ar que respira quando o mal e a culpa lhe entram em casa pela porta da frente e mesmo assim continua a fingir, a dizer não – o não como defesa, uma espécie de auto-perdão:

– Não, não fui eu. Foi aquele. Aqueloutro. Eu não.

Tal como eu fiz quando era miúdo e fui atacado por vespas na fazenda do meu avô, pois meti um pauzinho no vespeiro como quem mete veneno no ouvido alheio e as vespas caíram-me em cima, três picaram-me na cabeça, outras num braço, e depois eu disse à minha mãe, lavado em lágrimas, lágrimas autênticas por causa da dor, que tinha sido sem querer, que estava a passar e esbarrei por acaso, coitado de mim, e então toda a gente se juntou e demos cabo do vespeiro com fogo, como num culto religioso, quando usamos o sacrifício para expiar a tragédia que se abateu sobre nós.

A porta abriu-se e uma enfermeira chamou por mim, para me dar indicações sobre a situação do meu pai, porque ele é velho, não ouve bem. Eu fui lá ter e vi-o sentado numa cadeira com ar desnorteado, o cabelo branco a cintilar, os óculos na mão porque a máscara os deixa embaciados, e quando saímos ele disse-me assim:

– Isto doeu tanto!

E, um pouco mais à frente, repetiu:

– Isto doeu mesmo muito!