Acender a esperança

Não há volta a dar: o Natal este ano vai ser diferente. O mundo mudou e obrigou-nos a mudar com ele. O que era abraço, agora é distanciamento; o que era convívio, agora é perigo; o que era certeza, agora é incerteza; o que era garantido, agora é incógnita.

Tudo isto esteve em cima da mesa quando foi preciso decidirmos este ano o que fazer do Natal em Santa Cruz. Pensámos nas muitas famílias que passam dificuldades, pensámos nas recomendações das entidades de saúde, tentámos imaginar como será a Festa sem a festa, a família com o distanciamento, o encontro com as muitas barreiras que o vírus nos impõe.

Quem tem de decidir oscila sempre entre acertar e errar. Neste contexto tão novo que nos interpela todos os dias, a tentativa é não errar muito ou acertar o possível. Ficar algures no meio das possibilidades. Nesse meio que o povo diz ser a virtude e que espero que, neste caso, seja também o meio justo, o meio do que não podemos abrir mão, quando já se abriu mão de tanto.

Com o tanto que há a ser pensado face a uma realidade nova, a decisão foi a de que, apesar dos pesares, merecemos que não nos tirem tudo. Que não nos tirem pelo menos o brilho de uma época que, festejando um nascimento, transporta sempre essa esperança reiterada de um futuro.

Optámos assim por um meio termo. Sem o fulgor do ano passado, mas mantendo a iluminação, os presépios em todas as freguesias, mantendo alguma luz nestes tempos de escuridão.

Queremos, sobretudo, dar um sinal de esperança a todos, mas principalmente aos que passam dificuldades, aos que perderam tanto.

Queremos dar um sinal de esperança às nossas crianças obrigadas a brincar em distância, a respirar amordaçadas por este novo normal. Aos nossos idosos no centro de um furacão que atinge os mais frágeis e que ameaça a herança de uma sabedoria que há que preservar, proteger e acarinhar.

Uma esperança que vale para todos nós que estamos a viver subitamente num mundo onde tudo nos é estranho, onde tudo é novo, mas de uma novidade que nos assalta e tantas vezes nos derruba.

Sei, sabemos todos, que este Natal será forçosamente diferente, que este Natal terá de ser necessariamente diferente para que tudo, no futuro, possa voltar a ser igual.

As luzes vão voltar a brilhar no nosso concelho, na esperança de que brilhem também em nós, de que sirvam de caminho, de que alimentem a esperança, de que substituam o calor do abraço que não será possível dar.

Apesar de tudo, há que manter a alegria possível, a possibilidade de acreditar, de sonhar. Este é o grande significado do Natal deste ano e de tudo o que iremos manter para que a esperança não seja devorada pela escuridão. Que se acendam as luzes por fora e por dentro de todos! E com elas a esperança renovada de um amanhã no qual possamos deixar cair as máscaras, estreitar o abraço, destapar o sorriso e reencontrar o que sempre nos seu o mais profundo sentido. Que o Natal e a sua mensagem não se apague em nós.