O custo do esquecimento

Ulisses, de regresso a Ítaca, encontra os Lotófagos, uma população que se alimenta dos botões de lótus que têm a capacidade de fazer esquecer a realidade, provocando um sono pacífico e levando os companheiros do herói da Odisseia ao entorpecimento, criando uma suspensão temporal.

Ulisses não aceita parar: os Lotófagos não ameaçam a sua vida e prometem-lhe uma estadia idílica, mas o herói compreende bem o perigo da ilusão.

Quando nos acomodamos a não pensar, a não pôr em causa, em troca de uma vida centrada na prossecução dos objetivos individuais, abdicando da possibilidade de tomar posição, escolhendo soluções apressadas, vendidas embrulhadas em pacotes brilhantes, e atalhos que são estradas em saída, é mais ou menos como optar pela dormência da memória. E estando esta adormecida, abandonado o espírito crítico que só o conhecimento da história, da literatura, das artes, da filosofia, nos dão, é fácil pensar que só existe uma versão da história, abrindo caminho para a criação de estereótipos, mais do que falsos, incompletos, simplificando a complexidade da nossa história coletiva.

Durante as últimas décadas, as humanidades têm vindo sistematicamente a perder espaço, afastando-se os cidadãos da cultura, desabitando-a: Ernst R. Curtius, em “O abandono da cultura” (1931), alertava para o panorama de crise desolador devido ao desinvestimento na verdadeira formação de espíritos. O decréscimo de qualidade acabava por incidir no nível das classes dirigentes e, como espelho, da comunidade, levando a que nem as primeiras nem a segunda sentissem que lhes era exigido a elaboração e defesa dos valores ou uma verdadeira responsabilidade no plano intelectual e moral.

É interessante que Curtius tenha sentido a necessidade de, entre guerras, lembrar o empenho na personalidade, no “eu” e “nós” ético. Parecia a Curtius que a cultura tinha sido esquecida a favor de um presente que se vivia rápido demais, acabando por levar ao isolamento do homem e ao enfraquecimento social. Um processo de “embarbarização”. Ou um processo de entorpecimento, de esquecimento.

Nas últimas semanas, assistiu-se ao perigo de contar e acreditar numa única história, com quase meia América trumpista a duvidar que a sua democracia atue de facto, enquanto o seu líder usa a “sua” versão da história para expropriar e difamar. Deste lado, esquecendo a história da democracia social do PSD e do CDS, e os momentos históricos e eventos que levaram ao seu nascimento, os seus dirigentes caminharam para a associação a um pacote político revivalista de uma história perigosa, de dignidades feridas. Comendo os doces botões de lótus de uma vitória e de um poder idílicos, omitem os perigos dos discursos de um partido que apaga a história e retoma hipernacionalismos, semeia ódios e promete uma justiça justiceira. O perigo dessa nova narrativa é a do abatimento e da deformação da nossa história, feita de tantas histórias, não a usando para dar força e humanizar um povo, como o nosso, de tradição universalista e de empatia com o próximo, apesar dos erros da colonização, da imobilidade social que fomentava a ignorância e a manutenção dos mesmos no poder. Com a aliança nos Açores e a previsível junção de forças a nível nacional, ultrapassou-se o discurso de centro versus extremismo, racismo e misoginia. Confundiram-se as águas e entorpeceu-se a responsabilidade ética da cultura humanística. Mas, confio nos nossos tantos Ulisses, os que conhecem os perigos da ilusão e valorizam a memória.

 

Luísa Antunes escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas