Informação vs. Comunicação

Informação é, em si mesma, desde tempos remotos da existência do homem e da sua vivência social, enquanto ser gregário, uma realidade que compreende acontecimentos que ocorrem no mundo, rodeiam-nos e fazem parte do nosso meio ambiente. Para serem relevantes, em termos de informativos, estes acontecimentos quanto mais imprevisíveis maior o seu relevo e impacto em termos de Informação. 

A Informação é uma realidade que pode ser teoricamente medida através do cálculo de probabilidades. Maior será o valor informativo de um acontecimento, quando menos provável ele tenha de ocorrer; ou, dito de outra forma, é menor o seu relevo, caso a sua ocorrência seja comum e por isso menos valorável pela sua previsibilidade. A este propósito é eloquente a imagem usada no meio jornalístico: não ser noticia o cão que morde o homem, por oposição aquilo que será certamente “manchete” de jornal, a suposta ocorrência de um homem morder um cão.

Ao invés, Comunicação é um processo essencialmente sociológico. Processa-se entre pessoas dotadas de razão e de liberdade. Ocorre, não tanto pelo facto destas pessoas fazerem parte do mundo natural, mas pela circunstância de integrarem um mesmo mundo cultural. A previsibilidade aqui é um fator relevante. E desta previsibilidade resulta aquilo que constitui um dos princípios fundamentais do processo comunicacional: o da intercompreensão. 

Para tudo, os meios de informação contribuem indiscutivelmente. São eles que acabam reportando esta ligação, que se faz de forma rápida, quase instantânea, entre as visões do mundo e as transformações culturais modelando os nossos modos de vida.

O desfasamento da experiência cultural em relação à perceção que temos da informação, tecnicamente mediatizada, acaba sendo um dos problemas fundamentais do nosso tempo. A comprová-lo a sensação de que o mundo muda mais rapidamente do que os nossos quadros de referência, ao que se alia o sentimento de perca do domínio sobre a realidade e do desenrolar dos acontecimentos.

O desafio é o do “combate” à homogeneização. Não será pelo facto da Informação se ter tornado transnacional, de todos os homens poderem, às vezes em simultâneo, assistir ao desenrolar dos acontecimentos, que devemos passar necessariamente a ter de partilhar uma mesma visão do mundo e a ter uma mesma representação da realidade.

Nesta medida, se deverá considerar que a indiscutível homogeneização informativa e o facto de todos passarmos a partilhar o mesmo “mundo mediático”, não deve significar, necessariamente, uma desterritorialização generalizada. Não deve significar que toda a humanidade passe a ter as mesmas representações da realidade e, sobretudo, a pertencer à mesma área cultural.

Os valores culturais não podem ser esmagados. Cada uma das culturas deve continuar a definir espaço de entendimento e de compreensão dos acontecimentos e por isso esta deve merecer a importância e atenção que lhe é devida.

O surgimento dos regionalismos, fundamentalismos, nacionalismos, além da profusão de fake news, vêm colocar à evidência este possível entendimento. As diversas visões particulares da realidade, para além de continuarem a manter intactas a sua força, parecem até acentuar as vagas de fundo que sustentaram durante séculos os mecanismos mais arcaicos de coesão e sociabilidade étnica e territorial e, que, esta homogeneização da informação pode contribuir para despertar mecanismos coletivos de resistência pela relevância que lhes é dada.

Em termos práticos, o que assistimos diariamente nas TVs prova-o e os recentes atentados em França, por exemplo, com a morte bárbara do prof. de história Samuel Paty, ou as eleições nos EUA, são eloquentes a este nível.

Este desfasamento acaba assim explicando a contradição, entre a referida planetarização da Informação mediática e o crescendo de conflitos -que vão emergindo, e que descreve a nossa história social nos domínios das relações sociais e da experiência da linguagem e das ações por vezes radicalizadas.

 

Eduardo Alves escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas