Antes com covid do que com má língua

Novos tempos. Novos desafios. Novas oportunidades.

É assim que devem ser encarados estes dias. Se da doença eu não me posso queixar, já do bullying social a coisa não está assim tão assintomática. Tem sido um corrupio de diz que disse. Uma caça às bruxas constante. As pessoas no fundo não estão preocupadas com a doença nem com o doente. Estão sim focadas no apontar do dedo aos “negligentes” que se contaminam. Sim, porque na cabeça de muita gente, somos todos uns imbecis que andam a lamber corrimões e maçanetas. A chamar os elevadores com a língua. A snifar o hálito dos outros. No entanto estou certo que, não tarda, mudarão de opinião. Basta que algum familiar com cuidados imaculados se contamine. No supermercado. Na bomba de gasolina. Na porta de casa. 

Na verdade, a minha preocupação está em garantir que o vírus não vai a mais lado nenhum ao invés de saber de onde é que ele veio. Mas querem mesmo saber como fui contaminado? Eu conto-vos tudo o que sei e assim vocês juntam a tudo o que julgam saber ou que ouviram dizer. É porque muitos juram coisas que eu nem sei e a vida é minha. As suspeitas apontam para um evento que inicialmente estava previsto para realizar-se por dois dias e acabaram por ser três. Isto porque a procura assim o exigiu e as medidas de segurança não podiam ser adulteradas. Percebo então que muito boa gente lá esteve e eventualmente alguns queriam e ficaram de fora. Porém, para os experts, quem foi e se contaminou é otário. Quem teve mais sorte é um espertalhão. Enfim. O que sei é que não tive sintomas que me fizessem sequer pensar que pudesse estar infectado. Fui chamado a testar por ter estado com um positivo confirmado que esteve nesse mesmo jantar, numa mesa diferente da minha. As autoridades contactaram-me e lá fui no mesmo dia, à noite. Pelo sim pelo não, isolei-me. Recebi a informação na manhã seguinte e já nem de casa saí. Nem eu nem os meus familiares diretos. Forneci, também eu, os contactos próximos até à data solicitada. Contactaram quando e quem acharam que deviam contactar. Definiram o dia de hoje para o teste do restante agregado com a justificação de serem necessários alguns dias para garantir a inexistência de falsos negativos. Para além de concordar, quem sou eu para discordar? Não sou especialista como a maior parte que hoje opina sobre covid como se de ponto cruz se tratasse. Aos que, à nossa volta, se sentirem inseguros, só têm uma coisa a fazer. Ligar para o 800 24 24 20 e relatar a situação. Solicitar um teste. Tirar a dúvida. Lamento o constrangimento. Mas acreditem que também não tenho interesse nenhum em estar fechado. Juro.

Exponho-me assim por não ter nada a esconder, mas também por solidariedade para com todos os que sofrem esta pressão social de ser covid + pela mão dos que são (ou pensam ser) covid -. A sorte destes é que serão positivos numa altura em que já serão mais os infectados do que os saudáveis. Sim, porque, isto é, como uns chifres. Felizes dos poucos que não vão ter. Dos outros, uns vão saber e outros não. Talvez até venham a ser já numa fase em que serão os negativos a ficar em casa e os positivos na rua. No tempo em que teremos lugares nos restaurantes para covid’s ou não covid’s. Mais ou menos como tínhamos para fumadores e não fumadores.  Isto vai ser o novo normal.

Pois bem. Peço então que não julguem sem saber. Não apontem sem pensar que um dia podem acordar do outro lado da ponta do dedo. Acreditem que não é preciso muito! Repito. Não é preciso muito. E, salvo raras excepções, do covid recupera-se. Já da má língua...

Mas parar é morrer. E mesmo aqui fechado, há oportunidades que não se podem perder. Foi isso que pensei quando recebi uma chamada de um amigo meu. Estava eu a colocar as moradas, de alguns ódios de estimação, nos postais e a colar os envelopes com cuspo. Propôs-me um negócio. Daqueles quase da China. A ideia era que eu começasse a lançar bafo para dentro de frasquinhos. Fiquei de pensar. Ele disponibilizou-se para tratar de toda a parte burocrática e logística. Balancei. É tentador. Então se vendem o ar de Fátima em garrafas e garrafões, porque não comercializar covid num tubo de ensaio? Aposto que seria um sucesso. Então agora que o Natal está aí à porta... Não vou é ter ar para tanta encomenda.

Notas finais:

de confiança para os colegas. Continuem o excelente trabalho. Mesmo que o IASaúde tenha sentido necessidade de informar a especialidade dos profissionais infectados e não me recordar de alguma vez, ler se os outros foram ginecologistas, ortopedistas ou pedreiros. Mantenham os cuidados que sempre tiveram pois não é de agora que trabalhamos com vírus e bactérias.

de apelo aos pacientes. Garantam as vossas marcações. Prossigam os vossos tratamentos. No meio social o contágio é uma realidade presente. Já no meio profissional, não sendo nulo, é praticamente irrisório! Acreditem que mais depressa um médico dentista é contaminado por um paciente do que o contrário. Confiem.

de agradecimento para algumas pessoas que souberam e se preocuparam comigo em vez de continuar a bilhardice. Obrigado pelo vosso cuidado. Não vos vou expor, mas sei bem quem são. De uns eu não esperava outra coisa. De outros foi uma surpresa.

 

Pedro Nunes escreve
ao domingo, todas as semanas