Com galhardia

Este artigo sai publicado no dia em que faz um ano que assumi a direção da Autoridade Regional das Atividades Económicas, que todos conhecem como ARAE.

Um desafio que me foi lançado e que após muita ponderação, familiar e profissional, acabei por aceitar, não sem incertezas, naturais em que vem do privado e que nunca exerceu um cargo público desta dimensão e com toda a responsabilidade inerente ao mesmo. Não que não tivesse plena confiança nas minhas capacidades, mas a verdade é que nem toda a gente nasceu para liderar projetos e sobretudo pessoas, com todas as suas vontades, ambições e feitios. Felizmente encontrei um grupo de profissionais de alto gabarito, focados e empenhados, que me ouviram e perceberam a minha mensagem e que, francamente, acabaram por tornar a minha tarefa muito mais fácil. Por isso, obrigatoriamente, para eles o meu sincero agradecimento, por terem dado o sal a estes dias. E muito do seu suor.

E que bem difíceis têm sido estes dias. Marcados pela pandemia, pelo vírus, pela doença, pelo receio e pelo medo. Pelo medo das mortes que se sucedem lá fora, das medidas restritivas em todo o lado, pelo fecho das empresas, pelo medo da crise e do desemprego. Todos nós fomos, de alguma forma, apanhados de surpresa pela extensão da crise sanitária e logo de seguida económica. Nem nos piores receios no início de 2020 imaginaríamos tal cenário. Em Janeiro antecipávamos os meses seguintes, operações a realizar, formações a ministrar, negócios a lançar, férias a gozar, e assim, do nada, Março rimava com confinamento. Enquanto era aposta o teletrabalho na generalidade para preservar a segurança e distância dos cidadãos, à ARAE era determinado que, enquanto órgão de polícia criminal e no âmbito das suas atribuições, teria de coadjuvar as demais forças de segurança pública na fiscalização do cumprimento das medidas excecionais aplicáveis aos estabelecimentos comerciais, por força da atual situação de pandemia. O que fizemos. Em todo o arquipélago. Apenas possível graças aos homens e mulheres que compõem esta equipa, com a plena consciência de que se colocavam igualmente em (mais) risco, que se desdobraram em esforços, primeiro no controlo dos encerramentos obrigatórios e da atividade que poderia permanecer aberta, posteriormente na reabertura do comércio, informando, sensibilizando e alertando para as regras de higiene e segurança determinadas pelo Governo Regional, sem prejuízo de em alguns casos, necessários, utilizando as prerrogativas legais conferidas a esta Autoridade. De dia e de noite.

Mas os tempos são difíceis. Os responsáveis regionais procuram, no melhor das suas capacidades, debelar as fragilidades e limitações que hoje nos assolam, quer procurando as melhores medidas sanitárias de proteção da população, particularmente protegendo os mais vulneráveis, quer derramando na economia local as verbas e/ou as condições necessárias para que o tecido empresarial se mantenha a flutuar. Não é fácil encontrar o ponto de rebuçado entre a proteção da saúde e a proteção da economia, sendo que as duas são uma contrapartida da outra e muito dificilmente uma existirá plena sem a outra. Nós sentimos isto na rua. Seja numa loja, num café, num restaurante ou numa banca de mercado. As pessoas compreendem. Afinal está em causa a saúde pública, a saúde de todos nós. Seja 1%, 3% ou 30%, mesmo que seja apenas uma fatalidade, ninguém quer que seja a sua ou a de um ente querido. Mas por outro lado está o receio de perder tudo, de não vender, de não ter trabalho, de não ter como honrar as suas contas. E o desespero pode surgir. E com ele a negação de tudo o que foi feito até à data. E o de tudo fazer para o euro extra na caixa. Expor-se a si e aos outros ao perigo. É aqui que temos procurado intervir, não com o intuito repressivo, mas procurando prevenir, informar e sensibilizar para a quota-parte da responsabilidade que todos têm de assumir. Tem sido este o nosso papel primordial nesta pandemia e, permitam-me, executado com galhardia.

Mas meus amigos, isto só vai lá com a vossa ajuda. Já por diversas vezes comentei que não é possível, nem recomendável, ter um polícia em casa esquina. Não se pretende um estado policial. Mas é preciso que todos nós assumamos as nossas responsabilidades. Um dia destes virá uma vacina ou um fármaco que funcione, mas até lá há que se proteger. Evitar aglomerações desnecessárias. Usar a máscara em espaços fechados e na rua quando seja impossível manter o distanciamento de segurança. Que sejam tomadas as necessárias cautelas nos eventos familiares, nos convívios de amizade ou nos afazeres profissionais. A vida não pode parar, mas pode ser conduzida com segurança. Porque ajuda. E facilita o trabalho de todos nós.